De vacas, verdes e chuvas...

Angra do Heroismo, Açores.
Aproximei meu rosto da pequena janela e estiquei o olhar para cima da paisagem. Parecia que ao invés do Atlântico eu cruzara o universo. Tive a sensação de que o avião tinha se despistado, “virado à direita na segunda estrela” e ido parar directamente à Terra do Nunca, tão mágica se me parecia. Mas a voz do comandante, chegando um pouco arranhada aos meus ouvidos, me fez perceber que não se tratava de nenhuma paragem mítica, havia mesmo chegado à Ilha Terceira.

Se eu tivesse nascido aqui, de tão corriqueiro, seria escusado falar das vacas. É como se fosse óbvio, como se não fosse ao menos inusitado que, numa via rápida, uma manada de vacas me acompanhasse o táxi com maneiras tão bonacheironas. Mas o taxista, notadamente já acostumado com o espanto dos visitantes, fez logo questão de dizer que em breve iriam construir passagens aéreas próprias para os animais e esse problema deixaria de existir. Mas cá pensei eu se aquele senhor de bigodes fartos, sotaque redondo, e camisa axadrezada, tomaria aquele fato realmente como um problema. De quilómetro em quilómetro, lia a referência à Quinta do Martelo, que mais tarde fui visitar. Se é que se pode visitar o passado daquela maneira tão física. Uma vez que a Quinta do Martelo mantém-se quase como um feudo. Ferreiros, marceneiros, artistas, agricultores, mercearia, comida, passatempos, estadia. Tudo como há muitos anos. O resto da viagem seguiu tranquila desde o Aeroporto das Lajes até a cidade de Angra do Heroísmo, onde me hospedaria na casa de um cidadão muito especial – o afamado “polícia que pintava” - o Senhor Deodato Sousa, meu sogro.

Chegando em casa, fui recebida com a simpatia típica das tias terceirenses, em meio a abraços apertados e beijos efusivos que nunca vêm sozinhos, mas sempre em grupos de três, quatro ou mais. Na mesa do pequeno-almoço, havia o delicioso queijo Vaquinha em todas as suas versões e pão caseiro ainda quente. Me esbaldei já na primeira refeição em terras açorianas. Depois disso, nem as quase onze horas de viagem de Salvador até aqui e as horas de escala no aeroporto de Lisboa, me fizeram desistir da ideia de sair pela cidade. Me apetecia sorver toda história de Angra num só gole, ouvir o que as pedras que calçam a Rua da Sé me tinham a dizer daqueles que as puseram ali e daqueles reis e plebeus que as percorreram; queria ouvir acerca dos bailes que desfilaram ante as fachadas que enfeitam as ruas e ruelas do centro histórico e escutar, num cochicho, as crónicas editadas pelos bancos da Praça Velha; perscrutar com jeito de geóloga a caldeira do Monte Brasil, um pequeno vulcão extinto que hoje abriga uma reserva florestal – e um campo de tiros. Tinha pensado em escrever um relato da minha viagem por essa terra, mas me dei conta de que seria preciso escrever um livro com muitos volumes para tentar fazer jus à riqueza natural, histórica e cultural de Angra.

Nesse momento, parei diante da Sé, e saltando um a um os degraus da escadaria, entrei. Minha mãe costuma dizer que sempre que entramos numa Igreja pela primeira vez temos o direito de fazer três pedidos. Mantive a tradição ajoelhando-me num dos bancos ao fundo e não faço segredo do que desejei: queria ser feliz, como o quer toda a gente; queria tornar-me mais profunda do que o era naquele instante, e acima de tudo, queria esquadrinhar cada milímetro de poesia da vida, uma vez que considero a poesia o espírito que nos faz evocar beleza até no cinza. E é certo que meus pedidos foram de imediato atendidos, pois que tudo começou a se manifestar mesmo ali: num segundo quase que ouvi o estrondo do grande sismo, que em 1 de Janeiro de 1980 destruiu grande parte das construções da ilha, abalando a vida no arquipélago. Não que haja poesia na dor de um abalo sísmico, mas logo essa poesia salta aos olhos, brota de dentro dos corações, das mãos, do suor da gente que aqui vive, pois que o povo terceirense não mede meios nem esforços em se tratando de ser solidários. E, aos poucos, a ilha se ergueu novamente. E aquele evento apenas acrescentou mais história às suas páginas. Saí da igreja com a sensação de ter pequenos remendos de cimento na pele.

Logo ali em frente vi a Pastelaria Athanasio, toda remodelada, com cores e cadeiras modernas. Verde-limão e tabaco. Através do balcão de vidro, os meus olhos comiam os típicos doces, de fama internacional. Nas prateleiras, chaleiras e sacos de chá verde, o melhor de Portugal, segundo afirmam. E me deu uma dorzinha no peito. Quanto não preferiria se se tivesse mantido a carinha simples de antigamente, de quando era ainda um ponto de encontro de artistas e intelectuais, de quando abrigava as novidades que só chegavam à ilha com os navios, dentro de contentores gigantes, feitos de carne e alma.

Fui descendo a Rua da Sé, e à direita estava a Rua da Palha. Que na época do Natal está coberta com um tapete vermelho por onde a gente desfila com ares de estrela de cinema. Mesmo gente como eu que, por vezes, descalça os pés só para sentir a energia que vem do chão. Continuei.
Cheguei à Praça Velha. Linda. Velha. Muito bem conservada, como eu quero ser quando crescer. Um quadrado emoldurado por bancos verdes, pouso certo de gente saudosa de juventude, e suas cabeças, pouso certo de boinas, e suas bengalas, pouso certo de mãos. Fiquei na dúvida: não sabia se desejava ir para frente ou para trás no tempo. Se queria ser também eu velhinha, com as recordações de quando ali estive pela primeira vez; ou se queria ser só uma ideia e perscrutar seus pensamentos. Virei à esquerda, avistei o portal do jardim. Do Brasil, pitangueira carregada. Poucos sabem que aquelas frutinhas vermelhas se comem. Fui subindo, subindo. Monumento da Memória. Erguido em honra à visita do Rei: D. Pedro IV dos portugueses. D. Pedro II dos brasileiros. Olhei para a cidade que se espalhava lá embaixo. E eu quis ser grande. Quis ser água. Quis escorrer por todos os caminhos, fazer todas as curvas, e desaguar na baía. Lamber os barcos parados na marina, me enroscar nos ilhéus. Evaporar, virar chuva. Molhar tudo de novo. Ser filtrada pela terra, e gotejar os corpos daqueles que se aventuram pelo Algar do Carvão, único vulcão visitável do mundo. Tão aconchegante, tão frio, tão o oposto do que a gente pensa. Aquele lugar nos atordoa os sentidos. Nos faz sentir frutos de orgasmos múltiplos. Filhos gerados na barriga da Terra.
Dum parto que apenas cansou meus músculos, nasci. Me tornei filha da Terceira. Agora também corre leite gordo em minhas veias. E na íris dos meus olhos vêem-se pastos e cerrados. Vêem-se brumas. Vê-se aquela humidade intensa, chovo lágrimas de beleza. Jamais deixarei esta terra.

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