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Coelhodonte de estimação



Você sabe costurar coleiras?, perguntou. Por quê?. Porque preciso de uma bem grande para pôr no meu iguanodonte., respondeu sem tirar os olhos do livro que folheava. Naquele que está ali dentro da  caixa?, perguntei. Não, aquele é de brinquedo. Vou arranjar um a sério. E nem precisa se preocupar, como é herbívoro, fica mais barato do que criar um leão. Tem razão., concordei. O problema é que os iguanodontes foram extintos, já não existem. Ahh, murmurou tristemente. Virou mais uma página do livro. E os Mamutes, também já foram extintos?. Sim., respondi. Por outro lado, há os elefantes, que são bem parecidos, e também há os rinocerontes e os hipopótamos... É, os hipopótamos são interessantes, mas eu queria mesmo era um dos outros. Que tal se arranjarmos um coelho?, perguntei., Eles também são herbívoros. Verdade., aquiesceu. E continua sendo mais barato do que criar um leão, não é? É. Posso chamar Iguanodonte ao meu coelho? Pode. Assim foi feito. E esta é a fantástica história de como o Iguanodonte voltou a habitar a Terra.

Solução para soluços




O que é bom para passar soluço?. Susto., respondi. Fez uma careta toda torta, mexeu os dedos como quem faz cócegas no ar e saiu gritando: “BÚÚÚ!”. Voltou desanimado. Não passou., disse ele. A segunda melhor coisa que conheço pra soluço é beber água., falei. Pegou um copo e… glub, glub, glub. Ajudou?, perguntei. Não sei, vou ver e já te falo. Mas não é você quem está soluçando? Nããããão, não oooooouve?, gritou uma frase que foi se esticando pelo corredor inteiro. Não ouvia, e como éramos os únicos em casa, fiquei intrigada e fui até a pequena sala onde ele estava. Encontro-o diante do velho gira-discos, cabisbaixo. Não resolveu., disse. Então me lembrei que quando eu soluçava a minha mãe sempre me punha um fiapinho de linha vermelha molhada na testa. Contei-lhe. Foi até a caixa de costuras, molhou a linha vermelha na língua e veio cheio de esperanças. Onde fica a testa?, perguntou olhando para o gira-discos. Eu também não sabia. Bom, deve ser aqui no meio, onde tem esse papel redondo, arrisquei. É, tem mesmo cara de testa., confirmou. E, no instante em que ele pôs a linha, o disco parou de soluçar.

Receita para esticar uma manhã de sábado




Vinha andando devagarinho, equilibrando nas mãos juntas um tesouro gigantesco. Me mostrou com o rosto iluminado. ‘olha!’. Olhei. ‘O que é isso?’, quis saber. ‘É o tempo.’, respondeu. ‘O tempo? Onde o encontrou?’, perguntei. ‘Tirei da ampulheta. Estava sempre caindo, caindo...",  ele disse, e eu completei: “Um desperdício, não é?”. ‘É. Já reparou como é fininho?’. E penetrou o olhar na areia. Ela refletia o sol e brilhava. ‘Posso tocar?’. ‘Pode.’. Era tão fino que parecia entrar-me pelo dedo. ‘Rápido, vamos guardar para não se perder! Não se pode perder tempo, sabe?’, me incitou. ‘Sim, é verdade, não se pode mesmo. Onde o vamos guardar?’. ‘No relógio, não é lá que o tempo mora?’ E antes que eu dissesse alguma coisa, atirou a areia da ampulheta para dentro do velho cuco. ‘Acho que assim o dia vai ficar maior.’, justificou. Deu certo. Com tanto tempo enganchado nas engrenagens, aquela manhã de sábado durou o fim de semana inteiro.

Sopa de rei



“Era uma vez um rei…” E ele tinha coroa?, perguntou. Tinha. E era de ouro? Não, era de folhas., respondi. E não tinha que ser de ouro? Não, pode ser de qualquer coisa. Até de papel?, assombrou-se. Até de mentirinha. Girou os olhos prum lado e pro outro. Uma coroa de mentirinha faz um falso rei?, inquiriu. Uma coroa de mentirinha faz um rei de mentirinha, o que não quer dizer que seja falso. Eu posso virar rei?, perguntou maravilhado. Pode. Você conhece alguém que tenha virado? Conheço.: O rei do picolé, o rei da bicicleta, o rei do hamburguer… E eles usam coroa? Me interrompeu. Nenhum deles usa. Ah, quando eu for rei quero usar uma coroa. De ouro?, perguntei. Não, de conchas. De conchas do mar? De conchas de sopa., disse. Ouvi dizer que sopa é bom pra todo mundo. Acho que vou ser um bom rei. 

Boca-de-leão


Colocou um dente-de-leão no buraquinho da gengiva. Olhou-se no espelho e riu. O que os leões comem? Gnus, cervos, raposas se as encontrarem. Poderia caçar um gnu agora, disse. Não que existisse gnus onde vivia, mas entendia-os mais nobres que as raposas. Gnus têm chifres?, perguntou. Têm. Então vou fazer uma coroa pra mim como faziam aqueles velhos celtas que evocavam deuses. Eles tornavam-se deuses, não é? É, respondi. O que é preciso para me tornar um deus também? Basta uma coroa de chifres? Às vezes uma coroa de espinhos também surte efeito. Torceu o nariz. Sorriu para o espelho testando várias posições. Espichou o cabelo puxando com as pontas dos dedos. Pareço-te um leão? Rugiu. Fingi uma cara de susto. Ficou satisfeito. Posso dormir com ele? É pro caso de algum monstro te querer assustar durante a noite. Pode. E naquela noite nenhum monstro se aproximou da gente.



Ilustração: Wendy W. Lee