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Crônica de um carnaval feliz




Não vi o carnaval passar, a não ser ontem, Terça-feira gorda, numa alameda vazia. É que até então o baunilha das minhas paredes não se tinha animado, faltou-lhe o desejo de fazer-se tela. Atrás das cortinas não se movimentavam sorrisos itinerantes de Arlequins como nos teatros de sombra. Minha casa ainda está curtindo o Natal dos pirilampos mudos, presos nas portadas e é possível que só ilustre a fanfarra lá pra meados de Maio. Me aconteceu, pois, a alameda. Um chá no Café que se julga muito nobre - me esnoba fechando antes da hora, cheio de gestos afetados - Frequentado por pessoas que, encerradas em suas paredes baunilha, também não viam o carnaval passar. Nessa birra de fechar de portas, amuei, pulei pro café vizinho. Outro chá. Outra porta. Portinha, aberta aos pares, como livro infantil, colorido por dentro. Dentro das portas, o carnaval. Estava nas estantes, nos cabides. Imóvel. Sem marcha nem samba. Sombra. Deixei o chá esfriando sobre a mesa, entrei no livro e libertei a festa. A alameda não se iluminou. Fui eu. Púrpura e purpurina. Fiquei tão bonita no clichê de um voo troncho de borboleta que houve quem sorrisse. Identificou-se, de certeza. E foi assim que o carnaval passou por mim, me piscou o olho num esguicho de lança-perfume. Passou por mim e mal passava foi deixando tudo cinza. As asas queimaram-se. Não se queimaram nada, mentira. Só passaram voando, arrastando-se no tempo, puxando a quarta-feira.

A Tesoura de Agosto





Bianca era uma menina que se embaraçava numa larga fita rosa. A fita a acompanhava desde muito pequenininha como um presente posto sob a árvore de natal em janeiro à espera de dezembro chegar. E dezembro chegou em agosto, vindo como a tesoura que inaugura um novo mistério. A vida inteira Bianca acreditou que nesse dia haveria banda de música e que todo mundo que a reconhecia importante estaria presente, por isso ensaiou olhares e acenos durante muito tempo. Mas nada disso veio à baila. A Tesoura de Agosto a encontrou sozinha no banheiro da escola e a cortou sem pompa. O sino tocou no pátio, e já na sala de aula a professora de História falava de um Napoleão que jamais figuraria numa história como a dela. Mas até Napoleão concordava que um momento histórico exige uma frase de efeito, um suicídio, uma espada, uma dose de veneno, qualquer coisa que exploda. Então Bianca desmaiou porque julgava um desmaio um evento muito romântico. A mãe de Bianca tirou o seu nome de uma novela de rádio, e como toda mocinha de novela, ela também tinha um amor. O amor de Bianca era menino e tinha olhos azuis. Inventava muitas mentiras que ela não se importava de acreditar porque sempre preferiu os criativos.  Mas, para sua inteira frustração, o roteirista da história de Bianca não é muito dado a clichês. Assim que quando Bianca desmaiou, o menino de olhos azuis riu. E a apontou. E riu. Escondia a cara com as mãos, não porque queria esconder-se, mas porque queria mostrar ainda mais seu riso. Lógico que Bianca não viu isso tudo porque estava desmaiada. Viu só o finalzinho, o resto lhe contaram. Quando soube ficou emburrada, quis trocar de roteirista, quis trocar de amor. Quis trocar de papel com alguma daquelas meninas cujas novelas são sempre como devem ser as novelas. Mas desistiu quando o roteirista pôs fim no capítulo com uma frase bonita. Ela ficou satisfeita, e sorriu porque pensou que a novela dela é daquelas que valem a pena a gente ver. No fim, ele escreveu assim: A Tesoura de Agosto cortou-lhe a infância, mas agora Bianca guardava o segredo da primeira gota de sangue.

Sobre penas e asas




Esta crônica eu vou começar pelo fim, pelo pódio. Rubem Alves se colocou, certa vez, contra os pódios. Ele disse assim: “O pódio é motivo de briga. Todo pódio é motivo de briga. Ali, só cabem três”. E eu bem que concordo com ele. E até estenderia essa aversão a todos esportes competitivos, não tivesse conhecido essa modalidade de que vou falar. Trata-se de um torneio muito especial que acontece todos os anos por essas bandas e que transformou definitivamente a minha visão de esporte – dito – de competição. Nunca fui uma aficionada dessa área, entretanto, ossos do ofício, lá estava eu um fim-de-semana inteiro no Estádio João Paulo II a suar de alguma maneira para a realização do evento. Excetuando-se as escadas que de tão inclinadas e estreitinhas me causavam vertigem ao subir, não poderia ter estado em melhor lugar, garanto-vos.

Voltemos ao fim desta crônica no exato momento em que nos auto-falantes ouvia-se:

– Nos quatrocentos metros feminino, em sétimo (e último) lugar, a atleta Maria João!

Quem estivesse com ouvidos distraídos e apenas reparasse na comemoração da atleta, juraria de pés juntos que ela alcançara o primeiro lugar, a despeito das perninhas complicadas, dos passos frouxos e do olhinho meio morto que o sempre pestanejar tentava ressuscitar a todo custo. Esse mesmo observador de ouvidos distraídos se confundiria de igual modo com as outras atletas da prova, e com os outros quarenta e nove atletas de todo o torneio, a quem a voz do locutor caía-lhes como um encanto, bastando apenas ouvir seus nomes proclamados no estádio para que suas posições tomassem ares de puro ouro.

No intervalo, aproximou-se de mim o meu querido Emídio Paz. Todo sorrisos, ele me dizia:

– Tu viste? Tu viste? Ganhei de novo! Já é minha segunda medalha de ouro! – E enfatizou o Prêmio de Campeão Nacional de Marcha Atlética Adaptada, ganho no ano anterior, do qual há de se orgulhar para a vida inteira.

Só aos tolos seria capaz de interessar o fato de que ele fora, neste ano e no passado, o único a concorrer nessa categoria. Aos tolos e aos técnicos desportivos, o que é possível de significar a mesma coisa. Nada contra os técnicos desportivos, faço questão de ressaltar, mas vejam que tentaram anuviar o brilho dourado que emanava de cada nome anunciado. Me lembro de ver um deles pesar com seu cenho todo vincado de rugas de chateação quando um dos seus atletas parou durante a corrida para, com toda gentileza do mundo, cumprimentar a plateia que o incentivava:

– Vai, Chico! Vai Chico! Só falta tu!

Estava todo feliz o Chico, exibindo seu uniforme. No peito e nas costas, o papelote plastificado indicando o seu número. E ele se sacudindo todo em beijos e aclamações, os braços erguidos no ar como as asas abertas de um grande pássaro ou, quem sabe, de um desses anjos que a gente vê nas figuras, enquanto o técnico, se contorcendo em cólicas de desespero, o incitava a retomar a corrida para ao menos ganhar a medalhinha de participação. Quem lá queria saber de medalhas com tanta gente ali, amigos seus, aplaudindo sua glória? Pobre homem, estudou tanto e nem é capaz de perceber que aquilo é que é ganhar. Sem falar em Duarte. O único corredor que se dava o direito de relaxar um pouco a meio da prova. Se sentia uma fisgada no músculo, parava um pouco, se alongava, massageava os ombros e as pernas, e só quando se sentia melhor voltava a correr. Um exemplo de auto-respeito a ser seguido pelos melhores maratonistas.

No fim do segundo dia de provas, só as roupas suadas de tanto esforço me fazia ver que aquelas pessoas eram gente como eu, gente que come, sua e faz xixi. Porque sua felicidade era sobre-humana. Aliás, eram todos ultra-humanos, é provável que fosse a essa gente a quem Nietzsche se referia pela boca de Zaratustra como sendo o super-homem, aquele que diria “A minha felicidade, deveria justificar minha própria existência!". Eles são os que possuem um sentido desportivo e um espírito verdadeiramente olímpico de fazer inveja a qualquer Michael Phelps.

Agora, com todos os prêmios atribuídos e o pódio relegado à sua verdadeira condição de madeira e tinta, insignificantezinho, esquecido lá no meio do estádio, chegamos ao meio da crônica. Em Julho do ano passado deu-se o V Torneio de Atletismo Adaptado dos Açores, e todos aqueles atletas portavam deficiências físicas e mentais de leves a moderadas – um ou outro caso mais grave – vindos de perto e de longe para disputar aquelas provas. Diz-se ‘disputar’ em linguagem essencialmente técnica. Eles estavam ali era para brincar as provas. E para ensinar a gente. Dourar a nossa existência. Ao menos a minha douraram. Voltei cheia de medalhas pra casa. O peito brilhando amarelo, a alma toda reluzente. Vejam o caso do meu amigo Emídio. Por conta desses torneios de que participa e sempre vence, é grato à paralisia cerebral que o acompanha desde a meningite que apanhou ainda bebê e que lhe confere uma certa vantagem anatômica propícia a um corredor de marcha atlética. Enquanto Duarte me mostrou que se alguma coisa está me incomodando, eu devo abrandar a velocidade, parar um pouco, ver o que está acontecendo, aliviar a pressão e só então retomar a tarefa. Afinal, temos que respeitar nossos limites, avaliando-os com calma e tentar ultrapassa-los quando nos sentirmos seguros para tal e não lutando contra eles como fossem inimigos mortais. Já Paulo César, o galanteador, que todo elegante, trajando seus óculos escuros da moda, transforma sua esquizofrenia em pura excentricidade de uma popstar dos saltos em distância. Lindo! A encantadora Maria João, me transmitiu um ensinamento que todos os sábios taoístas vêem tentando meter na minha cabeça há décadas: a gente ganha mesmo quando perde. Verdade seja dita, sempre tinha visto isso como um cliché que só existia para consolar os lanterninhas, até levar com a alegria dela na caixa dos peitos.

Dito isso, sinto que agora temos o espírito preparado para começar esta crônica. O espírito que nos fará entender que ela fala de um tipo de gente que voa acima da humanidade; e nos tornará aptos a perceber que o que faz essas pessoas voarem assim alto, a ponto de roçarem as mãos nos anjos, não são asas, porque asas não têm. São as penas. As penas.
Revista Cotoxó - Março, 2010.


Foto: Timur Sezgin 2005

Lê grande, Maria!


O que me lembro de Caculé é um resto de poeira vermelha e farelo de biscoito que me sobraram nas dobras do vestido depois do café, quando acabei de chegar à casa de tia Bebela. Da viagem, a parada em Ibiassucê cujo único habitante que conheço, conhecido de muita gente, não me esperava à janela do ônibus, entre laranjas descascadas e geladinho, e nunca soube com certeza que no meu aniversário de dezesseis anos eu desejei que se demorasse em minha casa depois que todos os outros se foram. Na conversa de tia Bebela, dentro da mantegueira, espetada nos garfos, misturada com a goma do beijú, a memória do meu avô.
Do meu avô, uma fotografia que de há tanto que vi não sei se colorida ou a preto e branco, não sei se desbotada. A minha coxa como uma pálpebra inchada de chorar se fechando sobre seu braço, a fralda gorda e outras pessoas que a fotografia não reconhece, mas no espelho: as mesmas. E ainda o desfile de Sete de Setembro. O Tiro de Guerra na Avenida João Pessoa, o quartel inteiro a postos em frente ao número quarenta e três. Coturnos luzidios, rapazinhos de dezenove anos, lindos, não fosse o corte de cabelo. As armas, o atar dos cadarços, os passos perfeitos. Pareciam de brinquedo: eles, os passos, o sargento, os coturnos, os cardaços, só não as armas. Já havia visto espingardas antes. Com uma coisa daquela meu irmão matou um rato e o atirou ao oitão, me vincando a certeza de que não há morte de brinquedo. Providenciei com Teteu um enterro cristão. Porém Cau me interrompeu aos gritos, talvez pelo rato não ter sido batizado. Mas com aquela carinha tão linda duvido que alguém reparasse.
– Larga isso! Vou dizer à minha mãe! – Berrou ao me deparar com as pontas dos dedos se admirando com a penugem do bicho. Só vi a pantufa da minha mãe se estalando em meu lombo, e larguei o rato ainda a tempo de evitar o incidente.
Portanto eu sabia que tudo ali era de brinquedo, menos as armas, que ao comando do sargento:
– Preparar, apontar… – Se ergueram mesmo em direção ao meu avô:
– Nãããããããããããão! – Me antecipei, prevendo a tragédia – Não matem meu avô que está no céu! – Sacudindo nas grades do número quarenta e três. Uma dor desesperada, todo o peso de uma missão militar no meu grito, o cabelo enfarofado, o esmalte vermelho roído, os dentes afastados, os olhos muito grandes cachoeirando agonia e lágrimas, nem um soldado raso me olhou. Ninguém se dignou a desviar as balas. E lá de cima, o meu avô olhando o espetáculo pintalgado de verde e chumbo. Aposto que quis me pegar ao colo, fazendo dobrar minhas coxas como pálpebras muito inchadas sobre seu braço e morder meu mindinho como um ossinho de asa de galinha. Dizendo-me de um jeito que não sei como que não me preocupasse, pois se as balas ali chegassem era só pra lhe fazer cócegas nos pés.
Para além dessas minhas, as lágrimas da minha mãe na igreja. Era Dia do Perdão na Renovação Carismática, e a pregadora:
– Perdoe o seu pai.
E a minha mãe se iluminando toda numa mistura de sorriso e águas. Eu do seu lado, tentando me lembrar de qualquer coisa e ela uma certeza absoluta: nada. Me disse mais tarde: não há nada em meu pai que precisa ser perdoado.
Me dissolvi que nem um antiácido num copo d’água, borbulhando imagens de um homem em que nada há para se perdoar. Um homem só picolés, café em fogão de lenha, uma paixão lancinante por botões vermelhos em vestido verde-periquito. Aliás, uma paixão lancinante por verdes: os verdes olhos da minha avó, as palmas da caatinga, as palmas das mãos verdes de esmeraldas (algumas incrustadas sob suas unhas de garimpeiro, a maioria escondida nos mistérios das minas à espera de serem descobertas, como modelos em capas de revistas), a esperança que brilhava verde dentro dos seus sonhos, a couve, o mato.
Da igreja, também outras histórias do meu avô:
– Lê grande, Maria!
E minha mãe, só Maria, ainda não minha mãe, lia grande com o pensamento lá na novela. Biancando uma idéia de filha. Ainda não Eduardo – pois pra isso precisava meu pai – ainda não Ricardo, ainda não Liliana não sei porquê, pois que fui a primeira a nascer, embora tenha sido a quarta. E meu avô na assistência:
– Lê grande, Maria!
E ela aprendeu a ler grande com um homem que mal sabia escrever seu nome e ao qual nada há que se precise perdoar. Nem a bola de manteiga que fez o meu primo comer para tirar uma dúvida de queijo, nem as malvadezas veladas que hoje a gente conta com um quê de lenda, nem a viola quebrada para não ter que ouvir choro, nada. Sequer um docinho roubado lhe conferia pecados. Só a janta de ti’Anjin, só picolés de esmeraldas, só botões vermelhos, só o braço que dormia sob as pálpebras da minha coxa e da minha bunda de fralda. Só o sangue que pingava devagar para não assustar a minha tia que penava com uma fratura exposta, só o carro virado na estrada por um homem bêbado que não sofreu nada, só ele na maca falando baixinho, se indo mansinho como quem sabe que não volta:
– Lê grande, Maria…
E Maria já não Maria, mas minha mãe. Já lendo grande no púlpito. Já me ensinando a delícia de se morder um mindinho como um ossinho de asa de galinha. Já marcelando outra idéia no ventre. Eduardada até as pontas dos cabelos. Maria, que já não Maria, mas Bia. Que me ultrapassa em tudo que se refira a ler grande e a igrejas, que me ultrapassa em sorrisos e em verde-fé, em morais de histórias, em simpatia, em diolisandrices. Uma Maria que fala como quem canta um hino e em cuja alma também não treme nada que precisa ser perdoado.

Aconteceu na Serreta...


Venho de uma família numerosa e muito católica – como eram quase todas do nordeste brasileiro há 30 anos – e estou, portanto, desde que nasci, mergulhada no fantástico mundo das romarias, promessas e milagres. Entretanto, mais do que a conversão de vinho em sangue, sempre me impressionou isso das promessas. Quando criança, algumas me assustaram de tal modo dado a brutalidade dos sacrifícios que exigiam que prometi a mim mesma jamais fazer promessa alguma.

Quebrei-a. Quebrei-a neste ano, quando tive a oportunidade de acompanhar os peregrinos à Serreta. Saí de casa com a animação de quem vai a uma expedição em busca de algum novo mundo, e foi o que de facto, aconteceu.

Na caminhada que durou o dobro do tempo necessário para lá chegar fui encontrando amigos, adivinhando milagres, imitando os antigos navegadores ao me orientar pelas estrelas que, por sinal, naquela noite estavam belíssimas. Tanto que tive que parar em algum ponto do São Bartolomeu para respirar aquele brilho. Sobre o mar, a constelação de Escorpião.

Prossegui cantando as músicas da minha infância, e quando duas mulheres passaram por mim, acompanhei-as num “Um certo dia, à beira mar, apareceu um jovem galileu…” mas elas andavam depressa e a letra ficou-me pelo caminho. Vi adolescentes namoriscando, enquanto escondiam álcool numa garrafa de coca-cola. Isso que poderia parecer profano aos olhos de outros, a mim pareceu sagrado e ri-me por dentro.

Chegamos à Serreta exactamente à meia-noite. Tantas luzes, tanta gente, fizeram-me sentir como se tivesse conquistado uma medalha olímpica qualquer. Parecia que estavam ali para me receber e não sei que força me impediu de acenar com ar de vitória e mandar beijinhos a todos.
Antes de entrar na igreja, porém, encontrei-me com o Sr. José, um dos monitores da instituição em que trabalho e que outrora desejou ser frade. Ele me perguntou num tom entre o jocoso e o admirado: “Pagando promessa também, Bianca?”. Sorri-lhe para ganhar tempo. Não sabia o que responder. Temi que fosse uma falta de respeito fazer aquela peregrinação sem uma promessazinha sequer, mesmo eu que agora só mantenho do catolicismo as bases sobre as quais fui lançada ao mundo. E até poderia jurar que foi a Nossa Senhora dos Milagres que me sussurrou a resposta, que lhe dei com uma piscadela de olho: “A promessa está paga, Sr. José. Agora só me falta fazer o pedido”.

E fiz.


Foto retirada de http://www.acores.net/canalacores/view.php?id=39643

Aconteceu na Baía...



Penso que foi na semana passada, enquanto caminhava pela marina de Angra, que o vi pela primeira vez. Roupas pretas, algo maltrapilhas, cabelo longo e desgrenhado, barba imensa. Andava por ali com a cara séria de quem estava em missão oficial. Olhou para mim com a gravidade com que os oficiais olham os civis, talvez cuidando para que eu não me aproximasse demais, atrapalhando sua tarefa. Me esforcei por obedecer o aviso que li nos seus olhos, e esbocei um sorriso que não encontrou par. Entretanto, permitiu-me que o observasse de onde estava. De um saco plástico tirava punhados de milho quebrado que atirava aos patos da marina. Um bocado aqui, outro ali. Escolhia lugares estratégicos para evitar confusões. Também vinham pombos saborear o petisco, e uns pássaros novos, acinzentados, os quais nunca tinha visto e cujo nome desconheço. Eu me sentei no chão, perto do cais, e senti uma vontade infantil de ser pato. É bem provável que o homem tenha se apercebido, pois que me fez uma expressão desconfiada e apertou o saco de milho entre as mãos – não ia o diabo tecê-las! – Mas não investi para roubar-lho. Fiquei mesmo ali, sentada, quieta. Dona de uma paz profunda e sem fome. Desviei minha mente para o Monte Brasil, que parecia esgueirar-se, curioso, para o nosso lado. Tentei adverti-lo, não quisesse também ele aprender a grasnar. Não quis. Permanecemos em silêncio, admirando aquele homem como se fosse um humano apenas. Como se não se tratasse de uma humanidade. Concordamos, eu e o monte, que ele trazia uma sensibilidade de lua. Daquela lua inteira e alta do Fernando Pessoa. E uma ideia encantadora perfilou-me o pensamento: quem dera, diante daquele homem que distribuía grandeza em forma de milho, fôssemos todos patos.

De vacas, verdes e chuvas...

Angra do Heroismo, Açores.
Aproximei meu rosto da pequena janela e estiquei o olhar para cima da paisagem. Parecia que ao invés do Atlântico eu cruzara o universo. Tive a sensação de que o avião tinha se despistado, “virado à direita na segunda estrela” e ido parar directamente à Terra do Nunca, tão mágica se me parecia. Mas a voz do comandante, chegando um pouco arranhada aos meus ouvidos, me fez perceber que não se tratava de nenhuma paragem mítica, havia mesmo chegado à Ilha Terceira.

Se eu tivesse nascido aqui, de tão corriqueiro, seria escusado falar das vacas. É como se fosse óbvio, como se não fosse ao menos inusitado que, numa via rápida, uma manada de vacas me acompanhasse o táxi com maneiras tão bonacheironas. Mas o taxista, notadamente já acostumado com o espanto dos visitantes, fez logo questão de dizer que em breve iriam construir passagens aéreas próprias para os animais e esse problema deixaria de existir. Mas cá pensei eu se aquele senhor de bigodes fartos, sotaque redondo, e camisa axadrezada, tomaria aquele fato realmente como um problema. De quilómetro em quilómetro, lia a referência à Quinta do Martelo, que mais tarde fui visitar. Se é que se pode visitar o passado daquela maneira tão física. Uma vez que a Quinta do Martelo mantém-se quase como um feudo. Ferreiros, marceneiros, artistas, agricultores, mercearia, comida, passatempos, estadia. Tudo como há muitos anos. O resto da viagem seguiu tranquila desde o Aeroporto das Lajes até a cidade de Angra do Heroísmo, onde me hospedaria na casa de um cidadão muito especial – o afamado “polícia que pintava” - o Senhor Deodato Sousa, meu sogro.

Chegando em casa, fui recebida com a simpatia típica das tias terceirenses, em meio a abraços apertados e beijos efusivos que nunca vêm sozinhos, mas sempre em grupos de três, quatro ou mais. Na mesa do pequeno-almoço, havia o delicioso queijo Vaquinha em todas as suas versões e pão caseiro ainda quente. Me esbaldei já na primeira refeição em terras açorianas. Depois disso, nem as quase onze horas de viagem de Salvador até aqui e as horas de escala no aeroporto de Lisboa, me fizeram desistir da ideia de sair pela cidade. Me apetecia sorver toda história de Angra num só gole, ouvir o que as pedras que calçam a Rua da Sé me tinham a dizer daqueles que as puseram ali e daqueles reis e plebeus que as percorreram; queria ouvir acerca dos bailes que desfilaram ante as fachadas que enfeitam as ruas e ruelas do centro histórico e escutar, num cochicho, as crónicas editadas pelos bancos da Praça Velha; perscrutar com jeito de geóloga a caldeira do Monte Brasil, um pequeno vulcão extinto que hoje abriga uma reserva florestal – e um campo de tiros. Tinha pensado em escrever um relato da minha viagem por essa terra, mas me dei conta de que seria preciso escrever um livro com muitos volumes para tentar fazer jus à riqueza natural, histórica e cultural de Angra.

Nesse momento, parei diante da Sé, e saltando um a um os degraus da escadaria, entrei. Minha mãe costuma dizer que sempre que entramos numa Igreja pela primeira vez temos o direito de fazer três pedidos. Mantive a tradição ajoelhando-me num dos bancos ao fundo e não faço segredo do que desejei: queria ser feliz, como o quer toda a gente; queria tornar-me mais profunda do que o era naquele instante, e acima de tudo, queria esquadrinhar cada milímetro de poesia da vida, uma vez que considero a poesia o espírito que nos faz evocar beleza até no cinza. E é certo que meus pedidos foram de imediato atendidos, pois que tudo começou a se manifestar mesmo ali: num segundo quase que ouvi o estrondo do grande sismo, que em 1 de Janeiro de 1980 destruiu grande parte das construções da ilha, abalando a vida no arquipélago. Não que haja poesia na dor de um abalo sísmico, mas logo essa poesia salta aos olhos, brota de dentro dos corações, das mãos, do suor da gente que aqui vive, pois que o povo terceirense não mede meios nem esforços em se tratando de ser solidários. E, aos poucos, a ilha se ergueu novamente. E aquele evento apenas acrescentou mais história às suas páginas. Saí da igreja com a sensação de ter pequenos remendos de cimento na pele.

Logo ali em frente vi a Pastelaria Athanasio, toda remodelada, com cores e cadeiras modernas. Verde-limão e tabaco. Através do balcão de vidro, os meus olhos comiam os típicos doces, de fama internacional. Nas prateleiras, chaleiras e sacos de chá verde, o melhor de Portugal, segundo afirmam. E me deu uma dorzinha no peito. Quanto não preferiria se se tivesse mantido a carinha simples de antigamente, de quando era ainda um ponto de encontro de artistas e intelectuais, de quando abrigava as novidades que só chegavam à ilha com os navios, dentro de contentores gigantes, feitos de carne e alma.

Fui descendo a Rua da Sé, e à direita estava a Rua da Palha. Que na época do Natal está coberta com um tapete vermelho por onde a gente desfila com ares de estrela de cinema. Mesmo gente como eu que, por vezes, descalça os pés só para sentir a energia que vem do chão. Continuei.
Cheguei à Praça Velha. Linda. Velha. Muito bem conservada, como eu quero ser quando crescer. Um quadrado emoldurado por bancos verdes, pouso certo de gente saudosa de juventude, e suas cabeças, pouso certo de boinas, e suas bengalas, pouso certo de mãos. Fiquei na dúvida: não sabia se desejava ir para frente ou para trás no tempo. Se queria ser também eu velhinha, com as recordações de quando ali estive pela primeira vez; ou se queria ser só uma ideia e perscrutar seus pensamentos. Virei à esquerda, avistei o portal do jardim. Do Brasil, pitangueira carregada. Poucos sabem que aquelas frutinhas vermelhas se comem. Fui subindo, subindo. Monumento da Memória. Erguido em honra à visita do Rei: D. Pedro IV dos portugueses. D. Pedro II dos brasileiros. Olhei para a cidade que se espalhava lá embaixo. E eu quis ser grande. Quis ser água. Quis escorrer por todos os caminhos, fazer todas as curvas, e desaguar na baía. Lamber os barcos parados na marina, me enroscar nos ilhéus. Evaporar, virar chuva. Molhar tudo de novo. Ser filtrada pela terra, e gotejar os corpos daqueles que se aventuram pelo Algar do Carvão, único vulcão visitável do mundo. Tão aconchegante, tão frio, tão o oposto do que a gente pensa. Aquele lugar nos atordoa os sentidos. Nos faz sentir frutos de orgasmos múltiplos. Filhos gerados na barriga da Terra.
Dum parto que apenas cansou meus músculos, nasci. Me tornei filha da Terceira. Agora também corre leite gordo em minhas veias. E na íris dos meus olhos vêem-se pastos e cerrados. Vêem-se brumas. Vê-se aquela humidade intensa, chovo lágrimas de beleza. Jamais deixarei esta terra.

Metamorfose

Lembro da gente no chão da praça, sentadas, como se daquele ângulo fosse-nos possível vislumbrar toda a verdade do mundo; e fumando, como se aquele cigarro, comprado a retalho, que lutava com nossas gargantas conferisse alguma sabedoria à nossa voz. O meu cabelo temperamental, ao melhor estilo Maria Bethania, lia-me artista aos olhos dos outros. Mas o dela, lia-lhe livre. No copo, a cerveja misturada com o céu azul ia enrosescendo aos poucos, enquanto a esparsa espuma fazia as vezes de nuvens. Bebíamos o céu como se fosse um hábito, como se não fosse único, como se fosse nosso. Naquela época o mundo era tão pequeno que se quiséssemos, tocá-lo-íamos todo numa única carícia de mãos. Nas nossas mãos também vinham escritas nossas vidas. Era tudo tão certo, tão destinado, tão às claras, que o mistério só se abrigava no rosto, no dia da semana e na textura da voz. A eternidade era outra certeza, as dúvidas recaíam tão-somente sobre o sistema. “Imagine all the people living for today…” já não era do nosso tempo, mas permanecia atual. Coisa de gênio, acreditávamos. E pensávamos a genialidade como algo atemporal. Era algo como o guarda-chuva de Rubem Braga: pertinente em todas as épocas, quase imutável, quase que para ser perfeito bastava não ser chinês. Mas a China era corajosa aos nossos olhos. Era nobre, enfrentava o mundo, vencia monstros. Mao parecia encaixar perfeitamente na nossa utopia. Na utopia que ela me ensinou. Eu que era tão crua quando a encontrei. Tão crua, quase nua, meio ridícula… Ela me mostrando como enrijecer os braços, como fortalecer o espírito, “pero sin perder la ternura jamás”, íamos com a cara pintada, com as costas radiantes de luas e estrelas. Da lua também se diz que era nosso brinquedo. Rolávamos por suas crateras e de tanto riso, tanto riso, foram-nos tatuadas gargalhadas na alma. Ah, a alma, essa senhora controversa que tanto nos acalma, quanto nos inquieta. Da alma, talvez, também brotasse essa sede de encantamento, de deslumbre, que Gaarder dizia ser imprescindível a qualquer filosofia. E quanta filosofia parimos no chão daquela praça. De parto em parto fomo-nos tornando deusas. Aquelas todas que (re)encarnávamos sob vestes pagãs. E de deusas, fomo-nos evoluindo mulheres. Sempre intensas. Sempre vivas. Cheias de sangue vermelho entre as pernas. Capazes de seduzir o mundo com o perfume que nos evolava da pele. Permanecendo, porém, sempre meninas, guardando segredos e transbordando essência. Trocamos personalidades. Fui sua Madre Teresa e ela, minha Frida Kahlo. Tijolos uma da outra, posso dizer que fomos nos construindo. E de uma personalidade simples, ou quase simples, talvez Bi, ela foi me proliferando por dentro, me multiplicando em várias, e como ela, fui me tornando muitas, fui me tornando Poli.

Perca um livro

Na semana passada perdi um livro.
Fosse no mês passado e eu ficava louca. Mas foi na última sexta e eu fiquei feliz da vida. Perdi-o no metrô de Lisboa, na Estação Marquês de Pombal, lá por volta das três da tarde, se bem me lembro.
E de propósito.
Não sei precisar se o propósito foi meu, ou dele. Mas o fato é que o deixei ali, sentado naquele banco subterrâneo e mal iluminado, como se estivesse à espera do próximo trem que o levasse a uma viagem rumo ao desconhecido, e também mal iluminado, coração humano. Um outro, que não mais o meu, claro. Com o perdão do trocadilho.
No exato momento em que terminei de o ler, ele me pareceu triste e deprimido. Notei umas rugas na capa e umas curvas nas folhas, das quais não me tinha apercebido antes. Achei que fosse por conta do manuseio, mas não foi. Com um olhar mais apurado e alguma sensibilidade era fácil perceber que se tratava de tristeza pura. Uma aversão assustadora a estantes e gavetas se podia sentir nas nervuras da capa, como um estremecimento, uma dor, um medo. Creio que todos os livros – salvo os mais tímidos ou preguiçosos – têm essa mesma neurose. Ou seria melhor descrição se falar em profundo desejo de liberdade? Não me posso furtar de fazer uma analogia ao homem. Quem de nós - homens e mulheres, salvo os mais tímidos ou preguiçosos – não deseja percorrer o assombroso, o aventureiro, o mítico caminho que se bifurca uma e outra e outra e outra vez, criando as artérias que oxigenam o mundo? Se também fosse um livro, também odiaria estantes. Preferiria bancos de praça, onde uma pessoa chega ali e o encontra, como a um velho amigo que se acaba de conhecer, se abrem um perante ao outro, se imprimem um no outro, cada um à sua maneira. Depois se despedem com um “até logo!” simples e sem dor, como se não se tratasse da despedida definitiva que de fato seria.
“O Capitão de longo curso”, de Jorge Amado, não foi muito exigente. Viajante experiente sabia que qualquer lugar onde passam duas ou mais pessoas é um potencial ponto de encontro entre amigos. Não pensem que é fácil, para uma mente como a minha, cada vez mais cética, atribuir características andróginas a uma resma de papel impresso. Mas há coisas inexplicavelmente claras. E é certo que O capitão de longo curso se despediu de mim com um jeito terno, embora não tentasse disfarçar a excitação de ter ficado ali enquanto eu entrava no vagão.
Também não posso negar a minha excitação. Era a primeira vez que o fazia deliberadamente. Para não criar confusões, e aproveitando para advertir o “encontrador” da personalidade desbravadora daquele que em breve teria em mãos, deixei uma carta, com a parte de cima à mostra dizendo assim: “Oi! Eu perdi esse livro de propósito para que você o encontrasse”, e também expliquei rapidamente a idéia do americano Ron Hornbaker, que criou o “Bookcrossing” no começo dos anos 2000, que visa transformar o mundo numa grande livraria aberta e gratuita, e tentei também explicar a idéia do livro, de querer viajar por aí. A isso se perfilou uma quantidade de linhas (Já agora, também eu queria seguir o exemplo e tentar estabelecer um certo contato com o potencial leitor, afinal, todo escritor tem um quê de livro). Enfim, lá me fui eu em direção à Avenida de Roma, tentando encontrar a Livraria Barata. E ali ficou ele, radiante, com sua capa azul com o retrato perfeito que Caribé – grande artista baiano – fez do Aragãozinho, ou melhor, do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de longo curso. Nos despedimos com aquele “Até logo!” dos velhos amigos, simples e sem dor, cada um buscando novas aventuras e mandando um abraço apertado ao próximo companheiro um do outro, e carregando a infinita esperança de manter contato.


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Tente você também aderir à idéia fantástica de Ron Hornbaker, e perder seus livros, liberta-los das estantes, oferecer-lhes a eles e a si novos mundos. Vá ao site http://www.bookcrossing.com/ (em inglês) ou, para os brasileiros http://www.livr.us/ e ajudem a transformar o mundo numa grande livraria, por pura intensidade de viver e sincero amor literário.


Publicado na Revista Cotoxó