A aula estava quase no fim, e no entanto não acabava nunca. Àquela hora, eu estava derrotada. Enganchada entre o ponteiro dos minutos e o dos segundos impedia o tempo de avançar. A cabeça cheia de imagens de ontem. De hoje, eu só tinha a azia. Mas não era uma azia de cafeína, era uma azia de consciência, devida à mania de fermentar acontecimentos da minha vida. Acredito que dessa fermentação produza-se alguma bebida, algum tipo de vinho sanguineo que embriague não o corpo, a existência. Minha existência embriagada e o professor falando, falando, falando. De quê, meu Deus? Eu já não ouvia nada, entretanto via as palavras se formando no fundo da sua garganta, tecidas pelas cordas vocais como se ele tivesse engolido a avó com suas agulhas de tricot. E a avó engolida tecia não meias, mas dúzias e dúzias de palavras molhadas que jorravam, jorravam, jorravam. Assim, em golfadas de três. Eu estava sentada na primeira fila. Sim, é verdade que sou míope, mas não foi por isso. Também sou aplicada, é um fato. E no entanto, também não foi esse o motivo. O salto do meu sapato ficou preso entre os paralelepídedos da rua, no meio de um cruzamento. O sinal abriu, eu estava presa. Vieram umas pessoas me ajudar, um guarda de transito foi chamado para controlar a situação. Os motoristas dos carros que estavam já bem afastados vieram ver o que se passava e só depois que o semáforo deu duas ou três voltas é que consegui me libertar. A esse tempo, perdi o ônibus e tive que fazer o caminho até aqui a pé, o que explica o meu atraso e o motivo de eu me sentar numa das poucas cadeiras livres, todas na primeira fila que sempre permanecia vazia, dado ao fato de todos se repugnarem com a enxurrada de perdigotos que cascateavam aula abaixo. A literatura da qual ele falava caía em forma de sonetos, de versos alenxadrinos, ritmada metricamente gota a gota. Por momentos flutuavam no espaço entre a boca do professor e a minha cara, até perderem o poder de levitar e desabarem em mim. Adorei. Sou louca por poesia. Tocou a sirene. As pessoas levantavam-se, saíam, arrastaram suas vidas para fora da sala, dentro dos estojos ou espalmadas nos livros, fazendo de marcadores. Sem dar por isso, o professor continuava, continuava, continuava. Falava jogando as palavras na minha cara, me encharcando com sílabas ricas em rimas e ptialina. E eu o ouvia, ouvia, ouvia, e me encharcava, pois. Fechava os olhos e sentia a poesia que de vez em quando me acertava nos lábios. Como jamais praticaria a indelicadeza de um lenço, me levantei e avancei para ele com um beijo. Se é pra me molhar, senhor professor, que seja com todo o seu português.
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Meu Querido Noitário #3.
Imagina as pontas dos dedos suando, as pupilas se dilatando, as papilas gustativas se afiando umas nas outras, se amolando, talhando alma e julgamento e tornando-nos apenas instinto, imagina? Não foi o que imaginei, mas foi como fiquei quando o vi parado ao lado da janela de costas pra mim. Ele falava ao telefone com uma pessoa qualquer marcando um encontro qualquer num bairro qualquer numa hora qualquer e eu diante dele me sentindo uma qualquer. Me sentindo não, eu uma qualquer mas uma qualquer cujas papilas gustativas afiavam-se umas nas outras, cujas pontas dos dedos suavam, escorriam, pingavam, viravam rio, corriam pro mar, dissolviam-se em mar, era mar, era mar, era amar, maravilhada por ve-lo ali em pé ao lado da janela, falando, gesticulando, e completamente nu. Não sei se quando atendeu o telefone já estava despido, ou se o despi eu enquanto ele falava de encontrarem-se todos num coreto numa praça em que havia uma estátua, nao sei se eu fiquei estática ou se ondulava, se me remexia, mas mexiam-se-me as vísceras ve-lo ali, em pé, todo em pé, cada vez mais em pé, na vertical, rígido como um poste, não, não como um poste porque começou a andar. E eu cada vez mais escorrida, mais aguada, mais chovida, mais riada, mais marada, totalmente seteoceanada por ele. Eu um géiser vertendo, explodindo, jorrando, queimando, embaciando as paredes, os tijolos, o avesso da pele, da retina, da cortina, diante de um corpo que se descortina, me desatina, me obstina, me fascina, me faz libertina, me rouba a história, me arranca o passado, me tira o tempo, não me dá tempo, no máximo um segundo de presente, meu presente é todo ele que tomo de presente pra mim. Você imagina? Eu não. Porque não preciso. Eu vivo, eu como, eu me viro, eu me viro porque ele pede, por que pede? Ele manda, desmanda, demanda, faz o que quero de mim. E faz assim, bem assim, sempre assim, me fala assim, me cala assim. Como assim? Sim, como assim, me come assim e quando penso que é o fim ele diz pra mim: vira-te, porque ainda não acabei. E eu rezo pra que ele não acabe, pra que não acabe nunca, pra que continue, pra que permaneça que não amoleça que entardeça anoiteça e amanheça dentro de mim. Amém? Então ele desligou o telefone e me encontrou semiajoelhada, rezando, quase chorando, em estado de profundo encanto. E se enterneceu com aquela cena nazarena, tão pura, tão serena, com jeito de novena, me deu um beijo na testa e saiu.
Meu Querido Noitário #2.
Era noite. Não de sol, porque não era o Ártico, nem de verão, porque
estava frio. De desejo. Tinha rezado pro anjo da guarda ficar perto.
Tinha tomado banho, vestido camisola e calcinha de algodão pra ele não se inibir.
Tinha me deitado por baixo do cobertor. Mas não dormia. Tem que era noite de
desejo e debaixo do cobertor tinha a camisola larga e fofa de flanela. E era
que debaixo da camisola tinha a calcinha. E tinha que por baixo da calcinha eu
estava nua. E eu era pele e um fio de pêlo. Como esconder essa nudez, meu Deus?
Me encolhi. Quando era criança e brincava com meu primo, minha mãe dizia pra
ter cuidado com o que fazia que o anjo via tudo e depois contava. Estou
sozinha, vê? Falei eu pro anjo naquela noite, levantando a coberta para que não
ficasse dúvida. Ele viu. É claro que ele viu. Anjo vê até por baixo da coberta.
Vê por baixo da camisola. Consegue ver por baixo da minha calcinha, Anjo? Perguntei,
e pus as mãos por cima pra tentar esconder, desafiando. Pedi para que ele se
sentasse na beira da cama porque estava escuro e havia o medo. Vem, canta uma
cantiga do céu, me faz um carinho. Desenha carneirinhos no ar para que eu os conte.
Vem, segura minha mão, mas minhas mãos eu não tiro daqui para que você não veja
o que tem por baixo. É certo que o anjo segurou minha mão, pois que senti um
toque mole, sem ossos, macio. Carinho de anjo é bom. Relaxei. O Anjo também
relaxou, pois que se aconchegou em mim. Acomodou melhor a mão, atiçou o
carinho. Mão de anjo é engraçada, atravessa nossa pele, os ossos, passa para o
outro lado e a gente nem tem jeito de impedir. Apertei as pernas pra não
deixa-lo avançar. Bobagem. Atravessou a carne das minhas coxas, pôs-se onde
quis. Pôs-se dentro do nervo, fez festinhas, desenhou carneirinhos, riscou
virgulas, riscou virgulas, riscou vírrrr,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,írr,,,,,,,,,,,,,,,,,írr,,,,,,,,,gulas.
Ouvi cantigas de céu. Com a cantiga o sono veio vindo. Virei de lado, puxei minhas mãos para
unir sob meu rosto sereno, mas as mãos
do anjo ficaram lá. Tapando o que havia por baixo, para que outros anjos não vissem.
Para acompanhar,
Meu Querido Noitário #1.
Ele me aconteceu numa noite de teatro. Nossos
olhos avançaram, recuaram, não se morderam logo. Os traços brutos e o sorriso
manso lhe conferiam um aspecto de fauno. No teatro, a metalinguagem da peça escorreu pela plateia, metalambeu meus pés, meus joelhos. E ri porque morro de
cócegas nos joelhos, mas ele não sabia. Sequer me julgou numa idade em que as cócegas
ainda são possíveis e se acaso reparou no meu riso acreditou que eu era louca. Entretanto,
também não foi na loucura que nos encontramos. Nem na poesia, nem num conto de
fadas celta. Houve uma outra noite em que tropecei na sua sombra, e meu número caiu no número dele. Disfarçamos, trocamos. Já é hoje
e não destrocamos ainda. Passaram eras ou
árias ou ares ou horas antes de embaraçarmos nossos cabelos. E era tanto pêlo e
tão doce a cachaça que nos molhava, que descrever mais seria inventar mais. Sei que
tinha barba e cachos, sei que era forte porque arrastou meu equador para zonas
mais baixas do corpo, mudando o clima do meu hemisfério sul. Acontece que em algum momento o relógio parou e nosso
encontro ficou suspenso. Está pintado num quadro em que sabemos que o orgasmo é o
porvir, e contudo não acontece. Pior. Um filme interrompido no video logo a seguir à nudez, e a gente salivando à espera que a imagem volte. E ela não volta, e a gente ali. No entanto sei que a despeito desse intervalo cortante eu amei sua parte homem e sua parte bicho
porque minhas duas metades são de fêmea, mas há qualquer coisa de mulher que se
remexe entre meus seios. Sei que ele me amou, pelo riso e pelo cheiro, e porque era essa sua única alternativa. Sei, enfim, que as histórias precisam de um ponto pra acabar, mas essa ficou assim, engasgada num soluço, parada no meio de uma palav
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