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Crônica de um carnaval feliz




Não vi o carnaval passar, a não ser ontem, Terça-feira gorda, numa alameda vazia. É que até então o baunilha das minhas paredes não se tinha animado, faltou-lhe o desejo de fazer-se tela. Atrás das cortinas não se movimentavam sorrisos itinerantes de Arlequins como nos teatros de sombra. Minha casa ainda está curtindo o Natal dos pirilampos mudos, presos nas portadas e é possível que só ilustre a fanfarra lá pra meados de Maio. Me aconteceu, pois, a alameda. Um chá no Café que se julga muito nobre - me esnoba fechando antes da hora, cheio de gestos afetados - Frequentado por pessoas que, encerradas em suas paredes baunilha, também não viam o carnaval passar. Nessa birra de fechar de portas, amuei, pulei pro café vizinho. Outro chá. Outra porta. Portinha, aberta aos pares, como livro infantil, colorido por dentro. Dentro das portas, o carnaval. Estava nas estantes, nos cabides. Imóvel. Sem marcha nem samba. Sombra. Deixei o chá esfriando sobre a mesa, entrei no livro e libertei a festa. A alameda não se iluminou. Fui eu. Púrpura e purpurina. Fiquei tão bonita no clichê de um voo troncho de borboleta que houve quem sorrisse. Identificou-se, de certeza. E foi assim que o carnaval passou por mim, me piscou o olho num esguicho de lança-perfume. Passou por mim e mal passava foi deixando tudo cinza. As asas queimaram-se. Não se queimaram nada, mentira. Só passaram voando, arrastando-se no tempo, puxando a quarta-feira.

Cheshire em mim #2.




Estar sob os domínios da Rainha de Copas não é uma coisa que deixe Alice bem humorada. Se houvesse corações por todo lado, mas não. Só há sangue. Sangue nas roupas, nas ruas, entre as pernas, estagnado dentro das veias. Alice decidiu ir passear. Saiu do buraco. Na superfície, as pessoas sorriam-lhe como se sorrissem de volta. Ela sem entender. Até que num reflexo de vitrine deparou-se com um sorriso imenso na sua boca. Respirou fundo e disse entre dentes: Gatinho de Cheshire, pode-me fazer o favor de tirar este seu sorriso da minha cara? Por que?, perguntou o gato, Não gosta? Não, respondeu Alice, pareço louca sorrindo assim. Ohh, lastimou o gato projetando a língua para fora para lamber uma pata invisível, mas você é.

Correios #5.


De: Bianca, Outro Lado da Ilha de Cipango
Para: Alice, País das Maravilhas



  Querida Alice,
   
Recebi a garrafa que você me enviou. E como vê, estou fazendo uso dela. Você tinha razão, mesmo tornando-nos minúsculos há coisas em nós que não diminuem nunca. E a pequenez é boa para vermos o mundo de outro ângulo. Hoje mesmo me reuni com uns ácaros no tapete. Conversamos. Confessei uma certa mágoa que carrego deles. Mas neste mundo microscópico não há espaço pra rancores. O rancor é um sentimento agigantado, se eu permanecesse carregando-o seria empalada por ele. Não é um fim que desejo. Também nem haveria porquê. Deste tamanho, nenhum ácaro cabe no meu nariz e podemos viver em paz de espirro. Enfim, obrigada por compartilhar essa experiência comigo, estou mesmo de saco cheio das grandes coisas. Faz um afago Gato, come do bolo que te mando, fica tranquila que ele não faz crescer.

Beijo terno,
Bianca.