Li para ela o texto abaixo e ela sorriu como quem pensa. Então falei-lhe da menina que escreve essas coisas. "Também gosta de rosa antigo", contei-lhe. E de Django Reinhardt. "Tem muito de mim.", ela disse. E tinha de fato. Ambas com rímel e rouge. Cheias de renda. Nasceram poema. Doeram poemas. "não, não", corrigiu. "Eu gozei poemas". Anotei: Jamais confundir Romantismo com o desbotado prazer das frígidas. Riu. (Riu como quem sabe um segredo que lhe tentam ocultar). Ainda me intriga essa capacidade que ela tem de me adivinhar os pensamentos. Tomou de um pequeno baú que fica ao pé da cama. Abriu. Vi muitas fotos, recortes de jornal, uma flor seca, pensei ter sentido um cheiro de sexo, mas muito improvável. Ela apanhou uma das fotos e estendeu-me entre os dedos longos que funcionam eles mesmos como cigarrilhas. E falando em cigarrilhas, há uma na foto. E um seio à mostra. Era bonita como ainda hoje é. Remexeu livros e papéis. Deu-mos, com a sentença: "Agora vá, e leia meus orgasmos.". E eu fui. E eu li. E senti-os todos em mim.
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Retrato em rosa antigo
Porque era romântica usava babados e fitas e rouge ao invés de blush. Meias que se encontravam com a bainha dos vestidos na altura dos joelhos. Tudo em transparências de rosa antigo e bege. E em quase tudo, renda de bilro. Adorava camafeus e também cinema mudo, porque acreditava que dizia mais. “Palavras pra quê, se existe o gesto?”. Aprendi: Palavras pra quê, se existe o gesto? “Mas tem a carta”, disse alguém. E disse ela: “Ah, uma carta é um gesto”. Aprendi também. Colar de pérolas falsas escorrendo no peito de carnes verdadeiras. Ainda no peito, amores inventados – desses falamos depois, hoje não. De antigo não eram só o rouge, a renda, o cinema e o rosa. Tinha a língua. Sonhava em latim. Somniu. Somniu. Somnu… dormiu. Tudo bem, outro dia acabo a história.
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