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Receita para esticar uma manhã de sábado




Vinha andando devagarinho, equilibrando nas mãos juntas um tesouro gigantesco. Me mostrou com o rosto iluminado. ‘olha!’. Olhei. ‘O que é isso?’, quis saber. ‘É o tempo.’, respondeu. ‘O tempo? Onde o encontrou?’, perguntei. ‘Tirei da ampulheta. Estava sempre caindo, caindo...",  ele disse, e eu completei: “Um desperdício, não é?”. ‘É. Já reparou como é fininho?’. E penetrou o olhar na areia. Ela refletia o sol e brilhava. ‘Posso tocar?’. ‘Pode.’. Era tão fino que parecia entrar-me pelo dedo. ‘Rápido, vamos guardar para não se perder! Não se pode perder tempo, sabe?’, me incitou. ‘Sim, é verdade, não se pode mesmo. Onde o vamos guardar?’. ‘No relógio, não é lá que o tempo mora?’ E antes que eu dissesse alguma coisa, atirou a areia da ampulheta para dentro do velho cuco. ‘Acho que assim o dia vai ficar maior.’, justificou. Deu certo. Com tanto tempo enganchado nas engrenagens, aquela manhã de sábado durou o fim de semana inteiro.

Sopa de rei



“Era uma vez um rei…” E ele tinha coroa?, perguntou. Tinha. E era de ouro? Não, era de folhas., respondi. E não tinha que ser de ouro? Não, pode ser de qualquer coisa. Até de papel?, assombrou-se. Até de mentirinha. Girou os olhos prum lado e pro outro. Uma coroa de mentirinha faz um falso rei?, inquiriu. Uma coroa de mentirinha faz um rei de mentirinha, o que não quer dizer que seja falso. Eu posso virar rei?, perguntou maravilhado. Pode. Você conhece alguém que tenha virado? Conheço.: O rei do picolé, o rei da bicicleta, o rei do hamburguer… E eles usam coroa? Me interrompeu. Nenhum deles usa. Ah, quando eu for rei quero usar uma coroa. De ouro?, perguntei. Não, de conchas. De conchas do mar? De conchas de sopa., disse. Ouvi dizer que sopa é bom pra todo mundo. Acho que vou ser um bom rei. 




- Sabe aquelas árvores imensas que no inverno vão ficando peladas?
- hum... 
- Eu estou me sentindo a última folhinha. 

No meu céu, Escorpião.






A noite tresandando a veneno e meu corpo aberto numa estrela. Pentagrama de pele emanando cheiro ao invés de luz. Exalando mulher por todas as pontas – ainda mais mulher pelos ângulos. Pernas, pescoço, braços, cintura: arestas de múltiplas curvas e nenhuma escolha a não ser te venerar, Escorpião. Você que quando surge: um rei nato no meu céu lavado a breu, cruza-o sem dar por mim. Você que não ferrão, falo. (Cruza-me sem dar por mim). Fecunda-me de veneno e deleite. Você que não músculos, gás. Que não pele, armadura. Eu que não gás, mulher: por mais pentagrama, jamais estrela. Jamais Antares. Jamais seu coração, Escorpião. (Perchè non rossa, bianca). Por isso me ritualizo, me abro, me exalo. Pois quem não predador, presa. Quem não Órion, Diana. Quem não Golias, pedra. Ah, que ainda tropeça em mim!

Mute

Neste momento não posso atende-lo, mas deixe o seu recado logo após o sinal.


...


(E o sinal não veio).