“Tal incongruência!”, exclamou uma das tias para a outra a quem segredava algumas agruras do dia a dia, enquanto Mim tentava reparar o que julgava ser uma incongruência no desenho que acabara de fazer, pois dada a expressão da tia uma incongruência devia ser algo muito feio. Mim nunca foi boa nisso de desenhos, mas gostava de detalhar tudo quanto desenhava. E se pela chaminé da casinha saía fumaça, ela fazia questão de desenhar inclusive o cheiro da comida que estava ao lume. Mas isso não vem ao caso, afinal, o momento é de incongruências. A outra tia, aflita, encerrou a conversa dizendo: “deixemos isso para depois, todo mundo sabe que as paredes têm ouvidos!”. Mim se assustou. Que as paredes tenham pregos e quadros tudo bem. Mas isso de ter ouvidos era novidade. E pensou um momento nas tantas coisas que toda a gente sabe neste mundo, menos ela. Então de onde estava perscrutou atenciosamente as paredes à sua volta, até que viu uma rachadurinha numa delas. Mim então se aproximou da rachadura e tascou na parede um beijo muito estalado, daqueles ensurdecedores e em seguida olhou para as tias com um ar muito cúmplice e disse satisfeita: “podem continuar falando, que esse ouvido aqui já não escuta mais nada!”.
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Três histórias sobre Mim
Sobre Mim #1.
Lili estava compenetrada estudando.
Batia com o lápis na testa, sublinhava, grifava. Tinha uma caneta de quatro
cores que era a última moda. Mim gostava da caneta, de vez em quando Lili a
emprestava e ela se punha a bater com a caneta na testa, sublinhar, grifar. Não
usava a caneta para desenhar ou escrever longas teses em garatujas. Ela usava a
caneta pra ficar seis anos mais velha.
*
*
Sobre Mim #2.
Um dia Lili
estava estudando como de costume, sentada sobre uma das pernas. Espalhados sobre a mesa, estavam livros e
cadernos cheios de anotações em grego ou em chinês. Lili é uma pessoa que fala muitas línguas. Nos livros abertos viam-se muitas, muitas imagens de planetas e muitas letras grandes e pequenas, que para Mim, deviam ser gregas ou chinesas. Mim aproximou-se
e ficou olhando. Achava incrível que alguém entendesse aquelas coisas todas
sobre o sistema solar e canetês. Mim não entendia nada de canetês, só sabia falar língua falada. "As pessoas que sabem falar o idioma das canetas e dos livros", pensava ela, "são as pessoas mais especiais do mundo!".
*
Sobre Mim #3.
Já grandinha,
Mim foi estudar num colégio onde imperava a disciplina. Por exemplo, os alunos
eram agrupados por ordem alfabética em cada uma das classes, e nas classes,
eram agrupados em ordem alfabética em cada uma das filas. E seus lugares
permaneciam os mesmos durante todo o ano. Isso foi chato durante muito tempo,
até que um dia Mim chegou à sua carteira e lá estava escrito: “André”,
sem aspas, claro. Foi um susto. Não havia nenhum André na turma, ou seja, mais alguém usava aquela mesa além dela! Passado
o sobressalto inicial, Mim teve uma ideia e escreveu embaixo a lápis: “Oi, André! Ass: Mim.”. E no
dia seguinte: “Oi, Mim. Você também estuda aqui? Ass: André.” A pergunta de André mereceia um ?! de tão espantada, mas ele ainda não tinha aprendido isso e achou que uma interrogação bastava. Ela sorriu. “Sim, no turno matutino. E você?”. Considerou que já não precisava assinar. Mas cuidou bem da
pontuação pro caso da professora de português ir conferir. “No verpertino.”, no dia
seguinte. André também não assinou, já eram íntimos. E assim foram se correspondendo. O tampo da mesa tinha agora outra função que não apenas de suporte
para resolver problemas de matemática. Era onde se podia escrever. Mesmo. Como
num caderno. Sem saber eles inventaram o e-mail.
Ilustração: Alice Prina.
Ilustração: Alice Prina.
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