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Suo Tempore





Zacarias tinha 84 anos quase completos quando se deixou enredar pelas teias invisíveis, e por assim dizer, invencíveis, das palavras. Inexperiente demais, apesar da idade, para pressenti-las, continuou de olhos fechados, apertando-os ainda mais quando Isabel, sua mulher, pediu que a amasse com mais força. O prazer que sentia por esse pedido transformava-se num suor quase sólido cujo cheiro forte de hormônio impregnava até os tijolos das paredes do quarto em que se encontravam. E eles continuavam fazendo amor. Nem tão intensamente, como se fossem jovens. Nem tão desajeitadamente, como nas primeiras vezes. Mas tão deliciosamente como quando descobriram.


***


Isabel olhava-o com um misto de paixão e ternura. Era sempre assim que começavam: com os olhos. Seguidos das pontas dos dedos: os das mãos, se estavam em pé; os dos pés, se estavam deitados. Depois, se entregavam a abraços demorados. Os lábios que se tocavam tímidos, logo se abriam em alucinados beijos – “de cinema”, como ela gostava de dizer. E lá estava ele, despindo-a como a natureza despe da borboleta o casulo.
Quando estavam nus não havia idade. A idade se demonstrava apenas através das roupas escuras, longas, disformes que, de certa forma, se misturavam com a própria pele que agora parecia maior que o corpo que a ostentava cambaleante. Zacarias se maravilhava com a metamorfose que Isabel sofria diante dele. Era uma borboleta de asas prateadas que lhe encantava magicamente e voava com absoluta leveza sobre a cama de lençóis floridos. Exímio conhecedor que era do delicado instrumento que tocava, fazia flutuar do velho colchão de molas uma estranha melodia que compunha com movimentos magistrais.


***


Os seios fartos de Isabel jamais amamentaram um rebento, mas banhava em doce leite a imaginação de Zacarias que tinha senão olhos de metáforas ao pousar sobre sua mulher um olhar enamorado. Ele via as cicatrizes deixadas pelas garras afiadas dos anos que, não querendo ir-se, agarravam-se ao corpo de sua mulher, repuxando-o, na tentativa insana de mantê-lo no passado. Percebia a carne flácida e os carinhos que ziguezagueavam nas mãos trêmulas. Por tudo isso ele sabia que não fora o único a tocar Isabel. Ela também fora descoberta e apalpada por Chronos, com quem era obrigado a dividir-se a si e a sua esposa, numa atitude resignada de entrega. Não se importava. Sob os excessos de pele redobrada e cabelos rareados e brancos eles se atraíam mutuamente. E se amavam.
- Mais... – Sussurrava Isabel com sua voz modulada entre o contralto e o soprano, e com suas pernas o trazia ainda mais para junto de si. As unhas crescidas e grossas fincavam-lhe as costas e o pescoço.
Zacarias estremeceu. Arrepios lhes percorriam o corpo. Isabel sempre lhe havia demonstrado um certo pudor. Nada de puritanismo. Pudor apenas. Era a primeira vez que emitia gemidos em forma de palavras. Tomado num arroubo, só estava impelido a saciar o desejo daquela que era sua amada. “Mais... mais forte!!!”
A voz de Isabel agora ressoava no quarto como a chama de uma fogueira. E parecia queimar dentro da cabeça de Zacarias, dando voltas elípticas que lhe sugeriam um transe.
Um rio de suor escorria por suas têmporas. Aos 84 anos se cumpririam as profecias de grandes realizações proclamadas pelos aduladores de seu pai no advento do seu nascimento. Aos 78 anos Isabel invocava com palavras o propósito de suas vidas.
Ambos foram tomados por uma carga fugaz de juventude. E sem considerar a origem do impulso que os levava a agir como o que para sua época se consideraria uma obscenidade, eles continuavam.


***


Isabel sempre sonhara gerar uma criança. Sonho que não pudera ser pelo silêncio mudo dos seus ovários. Imaginou que seria num momento como aquele que o milagre da vida aconteceria. Quase oito décadas e um ventre de solo infértil. Sim. A seu tempo o milagre da vida aconteceria. Ela não hesitou. Aproveitou a garganta quente e gritou:

- Faça... Faça-me um filho!
***
Zacarias, embevecido, obedeceu.

O Presente de Odin


Olho o espelho de relance e vejo o perfil de um corpo alaranjado de mulher pespontado de jóias caras. Era uma sexta-feira fria de agosto e o ritual já se havia iniciado. Diante de mim se sustentava sobre quatro patas de pantera uma banheira em bronze, datada de meados do século XVIII. A efusão de flores, frutas e ervas me esperava para o encantamento. Antes, porém, deveria preparar o último dos ingredientes: meu corpo.
Com os pés descalços pude sentir a água derramada que escapou do jarro num gesto incerto, e continuei pisando a cerâmica escura até atingir o centro de mogno com frisos dourados, sobre o qual ardia uma pequena vela.
Os vidros e frestas das portas e janelas estavam todos encobertos por uma seda negra. Me plantei numa flor de lótus e me concentrei na idéia de percutir meus pensamentos seguindo o compasso de uma respiração forçosamente regulada. A escuridão que me envolvia sugeria um vazio que, de tão abusivo, tomava formas sólidas e roçava meus ombros nus num arrepio frio. Senti o ímpeto de olhar em volta, mas desisti diante da possibilidade do invisível. Proferi palavras num idioma que não compreendo, mas que surge em minha mente como caracteres pirografados numa antiga peça de couro, cujos sons venho tentando memorizar dias antes de estar ali. A escuridão que se estendia atrás de mim me arranha o corpo até quase eu gritar e o medo de flagrar o desconhecido me penetra o umbigo como um verme de sentimentos impuros.
Arranquei-me daquela posição e tateei a parede até encontrar o suporte de ferro que ostentava uma tocha apagada. Suspirei aliviada quando consegui acende-la, pois é certo que o fogo tem o poder de queimar nossos demônios.
Afixei a tocha ao suporte e tomei a vela que estava sobre a mesa. Nos espelhos que forravam as paredes do quarto vi sua luz multiplicada. Dancei em volta da chama com movimentos sinuosos como se a quisesse seduzir. Em seguida, deitei mel sobre meus seios e o senti escorrer, vagarosamente, até atingir o misterioso monte de Vênus e penetrar o vale ocultado pela relva escura. A toalha de cetim, em raro tom carmim, cobria aquele pedaço de altar em que eu me sacrificava. Com as duas mãos, e muito lentamente, untei cada parte do meu corpo, direcionando a energia ao exato ponto entre o umbigo e o púbis, massageando com movimentos circulares o meu segundo chakra. Chegou, então, o momento de derramar sobre mim o frasco de absinto e, por mais que eu me esforçasse em manter contidos os pensamentos, foi inevitável remete-los às épocas em que se viam senhores europeus queimando torrões de açúcar para também preparar a bebida que lhes iria ferver o sangue. Desprendi meus cabelos e os adornei com flores brancas de jasmim, escondendo, sob um ar de inocência, minhas mais ilícitas intenções.
Abri o tratado de filosofia oculta, escrito em 1801 por Francis Barret, e li o parágrafo do capítulo segundo que dizia: “o fogo é brilhante no início e no fim; quando se manifesta em todas as coisas e através de todas as coisas, é brilhante e ao mesmo tempo oculto e desconhecido; no seu estado puro, o fogo é ilimitado e invisível”.
Essas palavras acenderam em mim um desejo ainda maior de encantar o homem que, como um sonho ou um calafrio, me acalenta e gela o corpo e a alma. O homem cujo nome desconheço e cuja face jamais beijei. Mas que tem a faculdade de incendiar-se dentro de mim, transmutando meu sangue num oceano inteiro de lavas incandescentes.
Tomei a vela, como mandava o ritual, e me pus a flambar meu corpo para que se evaporasse de mim o espírito, numa oferenda resignada a Seraph, o príncipe cabalístico do fogo. Em troca, teria o poder de fazer arder, deliciosamente, os desejos daquele por quem ardem meus desejos.
Com um atame de prata fiz um pequeno corte no meu anular esquerdo e deixei cair, diretamente do coração, três gostas de sangue sobre a poção do encantamento. Finalizei vertendo meu corpo inteiro, ainda em chamas, dentro da banheira de onde se desprendeu uma névoa doce e perfumada, própria das quiméricas concubinas de Baco. A esse mesmo deus consagrei as uvas suculentas que me fisgavam em cachos que pendiam das bordas tremeluzentes da banheira, enquanto eu proferia as sagradas palavras carregadas de enlevo e magia:

“ Tejidos sois de primavera, amantes
de tierra y água y viento y sol tejidos.
La sierra en vuestros pechos jadeantes,
En los ojos, los campos florecidos,

Pasead vuestra mutua primavera,
Y aun bebed sin temor la dulce leche
Que os brinda hoy la lúbrica pantera,
Antes que, torva, en el camino aceche.

Caminad, cuando el eje del planeta
Se vence hacia el solsticio de verano
Verde el almendro y mustia la violeta,

Cerca la sed y el hontanar cercano,
Hacia la tarde de amor, completa,
Con la rosa del fuego, en vuestra mano”

Eu confio nos idiomas sagrados e acredito no seu poder, mas só posso falar da arte que me domina, e que por estar mergulhada nela, conheço bem. Se há versos sagrados nos meus livros de magia, eles são os ditados pelos senhores mestres da poesia, como se diz deste Mago Antonio Machado.
Imersa na banheira e com o corpo já encantado, descansei visões nos arabescos pintados pelo fogo na água sobre a qual estou deitada. Sou uma oferenda a Vênus, a Hécate, a Seraph e àquele homem incendiário que me derrete os sentidos.
Levantei-me e deixei a banheira em passos de felina ao tempo que olhava novamente os espelhos, imaginando a bela tela clássica que se retratava ali. A poção mágica na qual embebi meu corpo ia sendo lentamente sugada pela sede da minha alma, e o vestido preto que me esperava sobre a cama iria certamente atrair para mim toda a luz dos olhos daquele homem que se esconde sob um manto de símbolos.
À terceira hora da sexta-feira, regida pela lua, iniciei a conjuração invocando os anjos do Sagun, o terceiro céu, cuja natureza é atrair os homens ao amor às mulheres, incitando a luxúria. Com o punhal de prata risquei em meu ventre o selo sagrado de Vênus, o qual não posso descrever aqui. Antes, no entanto, tive o cuidado de apanhar o Brisingamen, o maravilhoso colar, todo em âmbar, de Freyja, a deusa viking da volúpia, e também da música, da primavera e das flores. Entoei um canto aos deuses e deusas da Cabala, do Olimpo, do Asgaard e das terras de Aioká, e segui, como rezava o ritual, com a leitura de um oráculo.
Lancei as runas. Odin, o detentor de todos os mistérios, tinha algo a me dizer.
A primeira runa retirada foi Perth, o Desconhecido. Para aqueles que não conhecem o alfabeto rúnico ela pode ser descrita como um caractere semelhante `a letra “G”; a segunda runa foi Tiwaz, O Guerreiro. Representada por uma seta apontando para cima, fazendo recordar a letra “T”; a terceira foi Raido, a Roda da Vida, muito parecida à letra “R”; a quarta runa foi Sowelu, o Sol, que em geral se parece com a letra “S”, mas no meu alfabeto arcaico está como a letra “E”; e por fim, me veio a runa Gebo, a União, que pode ser representada pela grafia do “X”. Essas letras rúnicas formavam juntas uma palavra estranha: GTREX. Mas não havia duvidas: Odin se referia a um guerreiro misterioso e desconhecido cujos segredos ser-me-iam revelados com o natural movimento da roda da vida, e quando isso se desse, Sowelu, a runa do bondoso e belo deus Baldur, garantiria vitória incondicional à união que estava fadada a acontecer.
Ainda no tratado de filosofia oculta que deixei aberto, se poderia ler que “ tão grande é a força da palavra humana, que pronunciada com uma determinação fervorosa, pode subverter a natureza, causar terremotos, tempestades e ventanias. Sem as palavras quase todos os sortilégios são impotentes. As palavras são uma espécie de veículo oculto da imagem concebida ou criada, emitidas pela alma através do corpo. Portanto, qualquer que seja o efeito miraculoso desejado, deve ser realizado junto com as palavras”.
Olhei mais uma vez as pedras rúnicas dispostas `a minha frente. GTREX. “ sem as palavras, os sortilégios são impotentes”. GTREX. “qualquer que seja o efeito miraculoso desejado, deve ser realizado junto com as palavras”. GTREX. O presente de Odin: GTREX.
GTREX. Essa palavra mágica encerra um homem dentro dela. Não um homem apenas, mas um guerreiro, sua vida e seu futuro ao meu lado.
Se estiver dormindo... GTREX... se estiver trabalhando... GTREX... se estiver andando pelas ruas... GTREX... se estiver nos olhos de outra mulher... GTREX... pelos poderes de Seraph, de Odin, de Vênus, de Freyja, de Bragi, de Sobá e de Sadai Cether, o Senhor de todos os deuses: Pelo fogo, pelo mistério, pela beleza, pela volúpia, pela poesia, pela profundidade desse mar de encantos e por tudo aquilo que o olho não vê: minhas palavras vão seduzir você.

Filha do mar

A noite ainda estava alta, e a lua pairava redonda no céu do Rio Vermelho como se fosse um furinho por onde Deus espiava seu povo aqui na Terra. O mar estava agitado e a maré enchia chocando-se violentamente com as pedras da praia do Buracão. Na areia, um círculo muito lindo de luz e flores se formava à medida que as pessoas iam chegando. Cada uma com suas oferendas e seus pedidos, carregando esperanças e desejos, e alguns até, mágoas e rancores. Uma moça de cabelos curtos pegou um violão e tocou uma música agradável, num tom suave que evocava todo o bem. Lá na beira do mar estava um grupo de baianas, com suas Yaôs e seus cânticos bonitos em língua nagô, que embora seja uma língua quase desconhecida, a gente sempre sabe bem o que quer dizer. Até o casal de gringos espanhóis que estava por ali entendia aquela prece simples em forma de canção, talvez por estar esse idioma incutido no inconsciente coletivo, talvez por ser a língua mãe de toda a gente.
A praia do Buracão estava com ares de aldeia e todos pareciam se conhecer. A moça do violão parou de tocar, mas a música continuou soando em nossos ouvidos, como barulho de concha. Uma mulher descalça, com um vestido branco comprido e penduricalhos prateados encobrindo o rosto estava de pé no centro do círculo e dançou uma dança cheia de curvas. Depois juntou todas as oferendas num imenso cesto, aspergiu sobre ele uma água perfumada, disse umas palavras inaudíveis e se voltou para os que estavam assentados ali.

***

Eu usava um vestido azul de retalhos, comprado numa barraca em frente ao Mercado Modelo e não estava muito atenta ao que acontecia. Só olhava o mar. Respirava um ar pesado de água, e sorria. Até me assustei quando a mulher do vestido branco aproximou-se de mim e pediu que abrisse as mãos, onde depositou um búzio cor de rosa. Todos sabiam que aquilo era sinal de sorte no amor, mas eu estava de verdade muito alheia ao que acontecia ali e voltei novamente meus olhos para as ondas despenteadas do mar do Rio Vermelho. Afinal, era pelo mar que estavam ali. Era pelo mar que eu estava ali.
Não nasci no mar. Nasci longe, longe. Lá no planalto frio da conquista, longe até dos pés de café que nem tiveram tempo de consagrar aquela região. Nasci longe de tudo o que era eu. Longe de tudo o que era minha história e minha gente. Nasci numa cidade plantada sobre sangue de índio, cujo nome se deve a uma vitória desgraçada, conquistada à base de veneno e enganação. Por isso, quando estava perto do mar, era só dele. Era toda dele.
Olhei as baianas com a água pelo meio das pernas e quis ir até lá. Mas fiquei só olhando. Imaginando. Tentando decifrar nas ondas algum código escondido, alguma mensagem, algum recado vindo lá do fundo do mar. Qualquer coisa que me indicasse o caminho de volta pra casa: as terras de Aioká.
Num momento me lembrei de casa. Aquela, nas terras de longe. Meu quarto, no andar de cima, com janelas abertas pro espaço. Tudo tão longe do que era eu: a casa, o quarto, o espaço. Tudo tão longe. Mas destino é coisa doida, traiçoeira. Rasga a alma da gente até a gente ir atrás dele, do destino. Eu, branca de estar tão longe do mar, queria fugir pela janela. Queria mesmo abrir minhas asas e fugir voando pela janela. Mas, desastrada que sou, acabaria me embolando nalgum fio de alta tensão e viraria pura energia de asas queimadas. Eu queria sair voando feito bruxa em vassoura. Mas não sabia fazer feitiços. E chorei de saudade de sabe-se lá o quê. Então ouvi um antigo samba de carnaval, tocado pela moça de cabelo curto que tornou a pegar o violão e eu nem tinha reparado. Só aí é que resolvi prestar atenção ao que se passava naquela roda tão bonita.

***

A essa hora o sol já despontava lá no canto do céu e pintava de rosa as nuvens mais baixas. Estavam todos felizes. Era dia de festa e a noite em vigília não embaçava de sono nossos olhos brilhantes. Os pescadores já aprontavam os barcos pra procissão. Mais gente foi chegando, mais cestos de oferendas, mais rosas, perfume, sabonete, espelhos e pedidos. Os mais interessantes: os pedidos. Teve quem pedisse uma boa pesca pro ano todo. Teve quem pedisse pra que o marido largasse a cachaça. E a moça que pediu um namorado. Muitas moças pediram um namorado, umas até pediram os namorados das outras, pra desprezo de Yemanjá. Dessas, ela devolveria os presentes, como já era de costume. Yemanjá não se corrompe. Mas eu pedi uma coisa diferente: queria ser levada pelo mar. Sabia que a terra não era meu lugar. Pois até aquele momento, nada que era firme e sólido e pra sempre fora o meu lugar. Sonhava com as dunas que viajam de um canto a outro com o vento. Sonhava com as ondas, que acordavam sempre em outras praias. Queria era ir embora dali: pedi pra ir pras terras do fundo do mar.

***

Entrei num dos barcos e segui de perto a procissão encabeçada pelos pescadores e que todo ano atrai milhares de pessoas ao Rio Vermelho. O barco em que estava levava uma grande quantidade de coisas. Muitos, muitos jarros com rosas brancas, garrafas de champagne e manjar. As baianas mais velhas cantavam com alegria. As mais jovens, estavam mais preocupadas com seus pedidos. Não os que eram feitos nas orações. Mas os pedidos propriamente ditos. Aqueles mulatos surrados de sol, corpos moldados na pesca, e freqüentemente, com uma tatuagem mal feita de sereia no braço ou no peito.

“Odo-odô Odoyá, Odoyá!
Odo-odô Odoyá, Odoyá!

Yemanjá
Sai do mar
Vem buscar sua yaô
Vestida de azul
Ó, dona do mar
Vem ver seus filhos,
Yemanjá”

A cantilena vinha de um coral de vozes do povo. Das vozes simples e doloridas do povo. Baianas, mulheres e homens tão devotados à Deusa quanto ao mar. Tava lindo de ver sair a procissão, com seus barcos carregados de presentes e flores. Levando desejos que não vinham de corações nem bons, nem maus. Mais do que pra Janaína, aquela cantilena era cantada pra mim... “Odoyá! Odoyá! Yemanjá, sai do mar...”
Naquele dia até o sol veio saúda-la. Brilhava tanto no céu quanto no mar, como que guiando o navegar dos pequenos barcos. E o povo cantava... “Yemanjá, sai do mar...”. A água estava tão transparente, que se podia vislumbrar entre as alegres ondas sereias de caudas brilhantes e cabelos compridos. Eu ouvia a música e via as sereias, minhas irmãs, nadando alegres sob o Vento Ligeiro, o barco que eu estava.
Chegamos a mar aberto, sol a pino. O mar tornara-se todo um espelho de luz azul. As baianas começaram a depositar as oferendas pra Grande Mãe. Um por um os cestos foram baixados. Esperava-se que desaparecessem nas águas profundas. Uma a uma. “Yemanjá sai do mar, vem buscar sua yaô...” . Era chegada a hora da minha oferenda. Minhas irmãs agora ao lado do Vento Ligeiro, de braços abertos pra mim. “ vem buscar sua Yaô...”. Fiquei de pé no barco. Me despi de toda roupa, mas deixei em meu dedo o anel, porque gostava de ouvir Caetano cantar a “menina do anel de lua e estrela”. Mas ali, era minha Mãe que me chamava com uma canção. Era sim. Era Ela que me chamava.
“Tô indo Mãe... to indo pra casa...”
A água que brotou do mar com o meu pulo molhou o chão do barco. E molhou também de água salgada o rosto das baianas que encantaram minha oferenda. E a música continuava “...vem ver seus filhos, Yemanjá”. Se no dia seguinte meu corpo não fosse encontrado na praia, era sinal de que meu presente fora aceito.

***

Aquele gosto de mar na boca quase consegue me afogar. Mas mar não afoga gente nascida nas terras de Aioká, porque essas gentes já nascem afogadas, essas gentes já têm traços de Yemanjá.
As minhas irmãs me rodearam rapidamente. Uma delas me tomou no colo e me deu um longo beijo na boca.
Dormi.

***

Um ano e outros anos se passaram, e Mãe Neuza olhava com saudade pras águas do mar. Olhava como se procurasse alguém escondido nas ondas. Então, foi se chegando, e abaixou-se mergulhando os dedos na água. Molhou a testa, pra saudar Yemanjá. Antes de se levantar, sentiu alguma tocar-lhe os pés. Era um papel onde se via um desenho bonito de sereia. Mãe Neuza sorriu feliz.

***
Ele terminou os últimos traços. Detalhes que passariam desapercebidos por quaisquer outras pessoas. Mas ele queria ser exato na descrição dela. Ela tinha uma cauda num tom de verde difícil de definir. E as asas. Jamais alguém vira sereia alguma com asas. Mas ela as tinha. E eram lindas. Exibiam uma transparência etérea, que só realçavam as costas, ou quando ela bem queria e as fechava em torno de si, tornavam ainda mais sensuais os seios nus. Ele a desejava mais do que em seus sonhos poderia supor. E a tinha mais sua do que sonhava ter. agora sim, o desenho estava perfeito. E o jogara ao mar, num dia 2 de fevereiro, como a prometera
Ele não a viu só uma vez. Mas na primeira vez que a viu, ela emitia aquele mesmo olhar indiferente e carnal que ele desenhara. E voou sobre ele, deixando cair gotas da água do mar. Por sorte, não havia por ali nenhum fio de alta tensão. Pois desastrada que era, acabaria se embolando, e viraria pura energia de asas queimadas.