O Presente de Odin


Olho o espelho de relance e vejo o perfil de um corpo alaranjado de mulher pespontado de jóias caras. Era uma sexta-feira fria de agosto e o ritual já se havia iniciado. Diante de mim se sustentava sobre quatro patas de pantera uma banheira em bronze, datada de meados do século XVIII. A efusão de flores, frutas e ervas me esperava para o encantamento. Antes, porém, deveria preparar o último dos ingredientes: meu corpo.
Com os pés descalços pude sentir a água derramada que escapou do jarro num gesto incerto, e continuei pisando a cerâmica escura até atingir o centro de mogno com frisos dourados, sobre o qual ardia uma pequena vela.
Os vidros e frestas das portas e janelas estavam todos encobertos por uma seda negra. Me plantei numa flor de lótus e me concentrei na idéia de percutir meus pensamentos seguindo o compasso de uma respiração forçosamente regulada. A escuridão que me envolvia sugeria um vazio que, de tão abusivo, tomava formas sólidas e roçava meus ombros nus num arrepio frio. Senti o ímpeto de olhar em volta, mas desisti diante da possibilidade do invisível. Proferi palavras num idioma que não compreendo, mas que surge em minha mente como caracteres pirografados numa antiga peça de couro, cujos sons venho tentando memorizar dias antes de estar ali. A escuridão que se estendia atrás de mim me arranha o corpo até quase eu gritar e o medo de flagrar o desconhecido me penetra o umbigo como um verme de sentimentos impuros.
Arranquei-me daquela posição e tateei a parede até encontrar o suporte de ferro que ostentava uma tocha apagada. Suspirei aliviada quando consegui acende-la, pois é certo que o fogo tem o poder de queimar nossos demônios.
Afixei a tocha ao suporte e tomei a vela que estava sobre a mesa. Nos espelhos que forravam as paredes do quarto vi sua luz multiplicada. Dancei em volta da chama com movimentos sinuosos como se a quisesse seduzir. Em seguida, deitei mel sobre meus seios e o senti escorrer, vagarosamente, até atingir o misterioso monte de Vênus e penetrar o vale ocultado pela relva escura. A toalha de cetim, em raro tom carmim, cobria aquele pedaço de altar em que eu me sacrificava. Com as duas mãos, e muito lentamente, untei cada parte do meu corpo, direcionando a energia ao exato ponto entre o umbigo e o púbis, massageando com movimentos circulares o meu segundo chakra. Chegou, então, o momento de derramar sobre mim o frasco de absinto e, por mais que eu me esforçasse em manter contidos os pensamentos, foi inevitável remete-los às épocas em que se viam senhores europeus queimando torrões de açúcar para também preparar a bebida que lhes iria ferver o sangue. Desprendi meus cabelos e os adornei com flores brancas de jasmim, escondendo, sob um ar de inocência, minhas mais ilícitas intenções.
Abri o tratado de filosofia oculta, escrito em 1801 por Francis Barret, e li o parágrafo do capítulo segundo que dizia: “o fogo é brilhante no início e no fim; quando se manifesta em todas as coisas e através de todas as coisas, é brilhante e ao mesmo tempo oculto e desconhecido; no seu estado puro, o fogo é ilimitado e invisível”.
Essas palavras acenderam em mim um desejo ainda maior de encantar o homem que, como um sonho ou um calafrio, me acalenta e gela o corpo e a alma. O homem cujo nome desconheço e cuja face jamais beijei. Mas que tem a faculdade de incendiar-se dentro de mim, transmutando meu sangue num oceano inteiro de lavas incandescentes.
Tomei a vela, como mandava o ritual, e me pus a flambar meu corpo para que se evaporasse de mim o espírito, numa oferenda resignada a Seraph, o príncipe cabalístico do fogo. Em troca, teria o poder de fazer arder, deliciosamente, os desejos daquele por quem ardem meus desejos.
Com um atame de prata fiz um pequeno corte no meu anular esquerdo e deixei cair, diretamente do coração, três gostas de sangue sobre a poção do encantamento. Finalizei vertendo meu corpo inteiro, ainda em chamas, dentro da banheira de onde se desprendeu uma névoa doce e perfumada, própria das quiméricas concubinas de Baco. A esse mesmo deus consagrei as uvas suculentas que me fisgavam em cachos que pendiam das bordas tremeluzentes da banheira, enquanto eu proferia as sagradas palavras carregadas de enlevo e magia:

“ Tejidos sois de primavera, amantes
de tierra y água y viento y sol tejidos.
La sierra en vuestros pechos jadeantes,
En los ojos, los campos florecidos,

Pasead vuestra mutua primavera,
Y aun bebed sin temor la dulce leche
Que os brinda hoy la lúbrica pantera,
Antes que, torva, en el camino aceche.

Caminad, cuando el eje del planeta
Se vence hacia el solsticio de verano
Verde el almendro y mustia la violeta,

Cerca la sed y el hontanar cercano,
Hacia la tarde de amor, completa,
Con la rosa del fuego, en vuestra mano”

Eu confio nos idiomas sagrados e acredito no seu poder, mas só posso falar da arte que me domina, e que por estar mergulhada nela, conheço bem. Se há versos sagrados nos meus livros de magia, eles são os ditados pelos senhores mestres da poesia, como se diz deste Mago Antonio Machado.
Imersa na banheira e com o corpo já encantado, descansei visões nos arabescos pintados pelo fogo na água sobre a qual estou deitada. Sou uma oferenda a Vênus, a Hécate, a Seraph e àquele homem incendiário que me derrete os sentidos.
Levantei-me e deixei a banheira em passos de felina ao tempo que olhava novamente os espelhos, imaginando a bela tela clássica que se retratava ali. A poção mágica na qual embebi meu corpo ia sendo lentamente sugada pela sede da minha alma, e o vestido preto que me esperava sobre a cama iria certamente atrair para mim toda a luz dos olhos daquele homem que se esconde sob um manto de símbolos.
À terceira hora da sexta-feira, regida pela lua, iniciei a conjuração invocando os anjos do Sagun, o terceiro céu, cuja natureza é atrair os homens ao amor às mulheres, incitando a luxúria. Com o punhal de prata risquei em meu ventre o selo sagrado de Vênus, o qual não posso descrever aqui. Antes, no entanto, tive o cuidado de apanhar o Brisingamen, o maravilhoso colar, todo em âmbar, de Freyja, a deusa viking da volúpia, e também da música, da primavera e das flores. Entoei um canto aos deuses e deusas da Cabala, do Olimpo, do Asgaard e das terras de Aioká, e segui, como rezava o ritual, com a leitura de um oráculo.
Lancei as runas. Odin, o detentor de todos os mistérios, tinha algo a me dizer.
A primeira runa retirada foi Perth, o Desconhecido. Para aqueles que não conhecem o alfabeto rúnico ela pode ser descrita como um caractere semelhante `a letra “G”; a segunda runa foi Tiwaz, O Guerreiro. Representada por uma seta apontando para cima, fazendo recordar a letra “T”; a terceira foi Raido, a Roda da Vida, muito parecida à letra “R”; a quarta runa foi Sowelu, o Sol, que em geral se parece com a letra “S”, mas no meu alfabeto arcaico está como a letra “E”; e por fim, me veio a runa Gebo, a União, que pode ser representada pela grafia do “X”. Essas letras rúnicas formavam juntas uma palavra estranha: GTREX. Mas não havia duvidas: Odin se referia a um guerreiro misterioso e desconhecido cujos segredos ser-me-iam revelados com o natural movimento da roda da vida, e quando isso se desse, Sowelu, a runa do bondoso e belo deus Baldur, garantiria vitória incondicional à união que estava fadada a acontecer.
Ainda no tratado de filosofia oculta que deixei aberto, se poderia ler que “ tão grande é a força da palavra humana, que pronunciada com uma determinação fervorosa, pode subverter a natureza, causar terremotos, tempestades e ventanias. Sem as palavras quase todos os sortilégios são impotentes. As palavras são uma espécie de veículo oculto da imagem concebida ou criada, emitidas pela alma através do corpo. Portanto, qualquer que seja o efeito miraculoso desejado, deve ser realizado junto com as palavras”.
Olhei mais uma vez as pedras rúnicas dispostas `a minha frente. GTREX. “ sem as palavras, os sortilégios são impotentes”. GTREX. “qualquer que seja o efeito miraculoso desejado, deve ser realizado junto com as palavras”. GTREX. O presente de Odin: GTREX.
GTREX. Essa palavra mágica encerra um homem dentro dela. Não um homem apenas, mas um guerreiro, sua vida e seu futuro ao meu lado.
Se estiver dormindo... GTREX... se estiver trabalhando... GTREX... se estiver andando pelas ruas... GTREX... se estiver nos olhos de outra mulher... GTREX... pelos poderes de Seraph, de Odin, de Vênus, de Freyja, de Bragi, de Sobá e de Sadai Cether, o Senhor de todos os deuses: Pelo fogo, pelo mistério, pela beleza, pela volúpia, pela poesia, pela profundidade desse mar de encantos e por tudo aquilo que o olho não vê: minhas palavras vão seduzir você.

3 comentários:

Felipe disse...

digitei "tratado de filosofia oculta" no google e acabei chegando no seu blog.
um belo e inesperado encontro.

Acqualunna disse...

Obrigada pelo carinho!

Rosinha disse...

Agora tudo faz sentido quanto ao poder dos deuses e da filosofia oculta aos olhos de alguns...

Xerão Maria.