Filha do mar

A noite ainda estava alta, e a lua pairava redonda no céu do Rio Vermelho como se fosse um furinho por onde Deus espiava seu povo aqui na Terra. O mar estava agitado e a maré enchia chocando-se violentamente com as pedras da praia do Buracão. Na areia, um círculo muito lindo de luz e flores se formava à medida que as pessoas iam chegando. Cada uma com suas oferendas e seus pedidos, carregando esperanças e desejos, e alguns até, mágoas e rancores. Uma moça de cabelos curtos pegou um violão e tocou uma música agradável, num tom suave que evocava todo o bem. Lá na beira do mar estava um grupo de baianas, com suas Yaôs e seus cânticos bonitos em língua nagô, que embora seja uma língua quase desconhecida, a gente sempre sabe bem o que quer dizer. Até o casal de gringos espanhóis que estava por ali entendia aquela prece simples em forma de canção, talvez por estar esse idioma incutido no inconsciente coletivo, talvez por ser a língua mãe de toda a gente.
A praia do Buracão estava com ares de aldeia e todos pareciam se conhecer. A moça do violão parou de tocar, mas a música continuou soando em nossos ouvidos, como barulho de concha. Uma mulher descalça, com um vestido branco comprido e penduricalhos prateados encobrindo o rosto estava de pé no centro do círculo e dançou uma dança cheia de curvas. Depois juntou todas as oferendas num imenso cesto, aspergiu sobre ele uma água perfumada, disse umas palavras inaudíveis e se voltou para os que estavam assentados ali.

***

Eu usava um vestido azul de retalhos, comprado numa barraca em frente ao Mercado Modelo e não estava muito atenta ao que acontecia. Só olhava o mar. Respirava um ar pesado de água, e sorria. Até me assustei quando a mulher do vestido branco aproximou-se de mim e pediu que abrisse as mãos, onde depositou um búzio cor de rosa. Todos sabiam que aquilo era sinal de sorte no amor, mas eu estava de verdade muito alheia ao que acontecia ali e voltei novamente meus olhos para as ondas despenteadas do mar do Rio Vermelho. Afinal, era pelo mar que estavam ali. Era pelo mar que eu estava ali.
Não nasci no mar. Nasci longe, longe. Lá no planalto frio da conquista, longe até dos pés de café que nem tiveram tempo de consagrar aquela região. Nasci longe de tudo o que era eu. Longe de tudo o que era minha história e minha gente. Nasci numa cidade plantada sobre sangue de índio, cujo nome se deve a uma vitória desgraçada, conquistada à base de veneno e enganação. Por isso, quando estava perto do mar, era só dele. Era toda dele.
Olhei as baianas com a água pelo meio das pernas e quis ir até lá. Mas fiquei só olhando. Imaginando. Tentando decifrar nas ondas algum código escondido, alguma mensagem, algum recado vindo lá do fundo do mar. Qualquer coisa que me indicasse o caminho de volta pra casa: as terras de Aioká.
Num momento me lembrei de casa. Aquela, nas terras de longe. Meu quarto, no andar de cima, com janelas abertas pro espaço. Tudo tão longe do que era eu: a casa, o quarto, o espaço. Tudo tão longe. Mas destino é coisa doida, traiçoeira. Rasga a alma da gente até a gente ir atrás dele, do destino. Eu, branca de estar tão longe do mar, queria fugir pela janela. Queria mesmo abrir minhas asas e fugir voando pela janela. Mas, desastrada que sou, acabaria me embolando nalgum fio de alta tensão e viraria pura energia de asas queimadas. Eu queria sair voando feito bruxa em vassoura. Mas não sabia fazer feitiços. E chorei de saudade de sabe-se lá o quê. Então ouvi um antigo samba de carnaval, tocado pela moça de cabelo curto que tornou a pegar o violão e eu nem tinha reparado. Só aí é que resolvi prestar atenção ao que se passava naquela roda tão bonita.

***

A essa hora o sol já despontava lá no canto do céu e pintava de rosa as nuvens mais baixas. Estavam todos felizes. Era dia de festa e a noite em vigília não embaçava de sono nossos olhos brilhantes. Os pescadores já aprontavam os barcos pra procissão. Mais gente foi chegando, mais cestos de oferendas, mais rosas, perfume, sabonete, espelhos e pedidos. Os mais interessantes: os pedidos. Teve quem pedisse uma boa pesca pro ano todo. Teve quem pedisse pra que o marido largasse a cachaça. E a moça que pediu um namorado. Muitas moças pediram um namorado, umas até pediram os namorados das outras, pra desprezo de Yemanjá. Dessas, ela devolveria os presentes, como já era de costume. Yemanjá não se corrompe. Mas eu pedi uma coisa diferente: queria ser levada pelo mar. Sabia que a terra não era meu lugar. Pois até aquele momento, nada que era firme e sólido e pra sempre fora o meu lugar. Sonhava com as dunas que viajam de um canto a outro com o vento. Sonhava com as ondas, que acordavam sempre em outras praias. Queria era ir embora dali: pedi pra ir pras terras do fundo do mar.

***

Entrei num dos barcos e segui de perto a procissão encabeçada pelos pescadores e que todo ano atrai milhares de pessoas ao Rio Vermelho. O barco em que estava levava uma grande quantidade de coisas. Muitos, muitos jarros com rosas brancas, garrafas de champagne e manjar. As baianas mais velhas cantavam com alegria. As mais jovens, estavam mais preocupadas com seus pedidos. Não os que eram feitos nas orações. Mas os pedidos propriamente ditos. Aqueles mulatos surrados de sol, corpos moldados na pesca, e freqüentemente, com uma tatuagem mal feita de sereia no braço ou no peito.

“Odo-odô Odoyá, Odoyá!
Odo-odô Odoyá, Odoyá!

Yemanjá
Sai do mar
Vem buscar sua yaô
Vestida de azul
Ó, dona do mar
Vem ver seus filhos,
Yemanjá”

A cantilena vinha de um coral de vozes do povo. Das vozes simples e doloridas do povo. Baianas, mulheres e homens tão devotados à Deusa quanto ao mar. Tava lindo de ver sair a procissão, com seus barcos carregados de presentes e flores. Levando desejos que não vinham de corações nem bons, nem maus. Mais do que pra Janaína, aquela cantilena era cantada pra mim... “Odoyá! Odoyá! Yemanjá, sai do mar...”
Naquele dia até o sol veio saúda-la. Brilhava tanto no céu quanto no mar, como que guiando o navegar dos pequenos barcos. E o povo cantava... “Yemanjá, sai do mar...”. A água estava tão transparente, que se podia vislumbrar entre as alegres ondas sereias de caudas brilhantes e cabelos compridos. Eu ouvia a música e via as sereias, minhas irmãs, nadando alegres sob o Vento Ligeiro, o barco que eu estava.
Chegamos a mar aberto, sol a pino. O mar tornara-se todo um espelho de luz azul. As baianas começaram a depositar as oferendas pra Grande Mãe. Um por um os cestos foram baixados. Esperava-se que desaparecessem nas águas profundas. Uma a uma. “Yemanjá sai do mar, vem buscar sua yaô...” . Era chegada a hora da minha oferenda. Minhas irmãs agora ao lado do Vento Ligeiro, de braços abertos pra mim. “ vem buscar sua Yaô...”. Fiquei de pé no barco. Me despi de toda roupa, mas deixei em meu dedo o anel, porque gostava de ouvir Caetano cantar a “menina do anel de lua e estrela”. Mas ali, era minha Mãe que me chamava com uma canção. Era sim. Era Ela que me chamava.
“Tô indo Mãe... to indo pra casa...”
A água que brotou do mar com o meu pulo molhou o chão do barco. E molhou também de água salgada o rosto das baianas que encantaram minha oferenda. E a música continuava “...vem ver seus filhos, Yemanjá”. Se no dia seguinte meu corpo não fosse encontrado na praia, era sinal de que meu presente fora aceito.

***

Aquele gosto de mar na boca quase consegue me afogar. Mas mar não afoga gente nascida nas terras de Aioká, porque essas gentes já nascem afogadas, essas gentes já têm traços de Yemanjá.
As minhas irmãs me rodearam rapidamente. Uma delas me tomou no colo e me deu um longo beijo na boca.
Dormi.

***

Um ano e outros anos se passaram, e Mãe Neuza olhava com saudade pras águas do mar. Olhava como se procurasse alguém escondido nas ondas. Então, foi se chegando, e abaixou-se mergulhando os dedos na água. Molhou a testa, pra saudar Yemanjá. Antes de se levantar, sentiu alguma tocar-lhe os pés. Era um papel onde se via um desenho bonito de sereia. Mãe Neuza sorriu feliz.

***
Ele terminou os últimos traços. Detalhes que passariam desapercebidos por quaisquer outras pessoas. Mas ele queria ser exato na descrição dela. Ela tinha uma cauda num tom de verde difícil de definir. E as asas. Jamais alguém vira sereia alguma com asas. Mas ela as tinha. E eram lindas. Exibiam uma transparência etérea, que só realçavam as costas, ou quando ela bem queria e as fechava em torno de si, tornavam ainda mais sensuais os seios nus. Ele a desejava mais do que em seus sonhos poderia supor. E a tinha mais sua do que sonhava ter. agora sim, o desenho estava perfeito. E o jogara ao mar, num dia 2 de fevereiro, como a prometera
Ele não a viu só uma vez. Mas na primeira vez que a viu, ela emitia aquele mesmo olhar indiferente e carnal que ele desenhara. E voou sobre ele, deixando cair gotas da água do mar. Por sorte, não havia por ali nenhum fio de alta tensão. Pois desastrada que era, acabaria se embolando, e viraria pura energia de asas queimadas.

Um comentário:

editorfolha21 disse...

Bianca.

Há muito que não nos comuicamos.

Atualize seu blog ou voce parou de escrever?

Acho lindo a prosa-poesia "Filha do mar",talvez algum dia eu comente pessoalmente.
Não esmoreça,menina, você é ótima.Vamos,continue!

Aguardo resposta.

Abraço amigo de,
Renato Senna