Aconteceu na Baía...



Penso que foi na semana passada, enquanto caminhava pela marina de Angra, que o vi pela primeira vez. Roupas pretas, algo maltrapilhas, cabelo longo e desgrenhado, barba imensa. Andava por ali com a cara séria de quem estava em missão oficial. Olhou para mim com a gravidade com que os oficiais olham os civis, talvez cuidando para que eu não me aproximasse demais, atrapalhando sua tarefa. Me esforcei por obedecer o aviso que li nos seus olhos, e esbocei um sorriso que não encontrou par. Entretanto, permitiu-me que o observasse de onde estava. De um saco plástico tirava punhados de milho quebrado que atirava aos patos da marina. Um bocado aqui, outro ali. Escolhia lugares estratégicos para evitar confusões. Também vinham pombos saborear o petisco, e uns pássaros novos, acinzentados, os quais nunca tinha visto e cujo nome desconheço. Eu me sentei no chão, perto do cais, e senti uma vontade infantil de ser pato. É bem provável que o homem tenha se apercebido, pois que me fez uma expressão desconfiada e apertou o saco de milho entre as mãos – não ia o diabo tecê-las! – Mas não investi para roubar-lho. Fiquei mesmo ali, sentada, quieta. Dona de uma paz profunda e sem fome. Desviei minha mente para o Monte Brasil, que parecia esgueirar-se, curioso, para o nosso lado. Tentei adverti-lo, não quisesse também ele aprender a grasnar. Não quis. Permanecemos em silêncio, admirando aquele homem como se fosse um humano apenas. Como se não se tratasse de uma humanidade. Concordamos, eu e o monte, que ele trazia uma sensibilidade de lua. Daquela lua inteira e alta do Fernando Pessoa. E uma ideia encantadora perfilou-me o pensamento: quem dera, diante daquele homem que distribuía grandeza em forma de milho, fôssemos todos patos.

2 comentários:

Rosinha disse...

Troco o milho por letras juntas em palavras, frases e berros, a roupa preta por uma veste clara, cabelos soltos e lentes brilhantes.Dessa sempre fui pato envergonhado em meio a tanto poder de "SERUMANO".


"Pessoal Intransferível:

Escute aqui meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada nos bolsos e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso. Poetar é simples, como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena, etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil para quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que pensando bem não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo, menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por ai, ainda por cima sorridente, mestre de cerimônias, "herdeiro" da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus. E fique sabendo: quem não se arrisca, não pode berrar. Citação: Leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, mesmo que tenha sido o boi. Adeusão."

Torquato Neto.

Rosinha disse...
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