Aconteceu na Serreta...


Venho de uma família numerosa e muito católica – como eram quase todas do nordeste brasileiro há 30 anos – e estou, portanto, desde que nasci, mergulhada no fantástico mundo das romarias, promessas e milagres. Entretanto, mais do que a conversão de vinho em sangue, sempre me impressionou isso das promessas. Quando criança, algumas me assustaram de tal modo dado a brutalidade dos sacrifícios que exigiam que prometi a mim mesma jamais fazer promessa alguma.

Quebrei-a. Quebrei-a neste ano, quando tive a oportunidade de acompanhar os peregrinos à Serreta. Saí de casa com a animação de quem vai a uma expedição em busca de algum novo mundo, e foi o que de facto, aconteceu.

Na caminhada que durou o dobro do tempo necessário para lá chegar fui encontrando amigos, adivinhando milagres, imitando os antigos navegadores ao me orientar pelas estrelas que, por sinal, naquela noite estavam belíssimas. Tanto que tive que parar em algum ponto do São Bartolomeu para respirar aquele brilho. Sobre o mar, a constelação de Escorpião.

Prossegui cantando as músicas da minha infância, e quando duas mulheres passaram por mim, acompanhei-as num “Um certo dia, à beira mar, apareceu um jovem galileu…” mas elas andavam depressa e a letra ficou-me pelo caminho. Vi adolescentes namoriscando, enquanto escondiam álcool numa garrafa de coca-cola. Isso que poderia parecer profano aos olhos de outros, a mim pareceu sagrado e ri-me por dentro.

Chegamos à Serreta exactamente à meia-noite. Tantas luzes, tanta gente, fizeram-me sentir como se tivesse conquistado uma medalha olímpica qualquer. Parecia que estavam ali para me receber e não sei que força me impediu de acenar com ar de vitória e mandar beijinhos a todos.
Antes de entrar na igreja, porém, encontrei-me com o Sr. José, um dos monitores da instituição em que trabalho e que outrora desejou ser frade. Ele me perguntou num tom entre o jocoso e o admirado: “Pagando promessa também, Bianca?”. Sorri-lhe para ganhar tempo. Não sabia o que responder. Temi que fosse uma falta de respeito fazer aquela peregrinação sem uma promessazinha sequer, mesmo eu que agora só mantenho do catolicismo as bases sobre as quais fui lançada ao mundo. E até poderia jurar que foi a Nossa Senhora dos Milagres que me sussurrou a resposta, que lhe dei com uma piscadela de olho: “A promessa está paga, Sr. José. Agora só me falta fazer o pedido”.

E fiz.


Foto retirada de http://www.acores.net/canalacores/view.php?id=39643

Um comentário:

Rosinha disse...

Será que devo ir numa romaria no meio duma reca de gente pagar qualquer "promessa" que seja pra alcançar a graça que tanto espero?rs

Xerão Maria. ;)