Da alquimia...


Quando pequena, olhava para a Serra do Periperi que cerca a cidade em que nasci, com a certeza de que mesmo ali atrás estava o mar. Imaginava a praia fervilhante de gente, guarda-sóis e picolés em caixas de isopor. Alguns coqueiros dando vida. Às vezes, quando passeava com minha avó, lhe perguntava e já de seguida eu mesma respondia:

- Ali do outro lado da serra está o mar, né, vó? É. Eu acho que ali já é Ilhéus. Vamos lá, vó?

- Hoje não, o sol está muito quente.

Era perto, mas o sol ia castigar.

No entanto, um dia descobri que Ilhéus estava a quase trezentos quilometros. E tudo deixou de ser perto. Já até tinha me arrependido de tanto insistir em ir ao outro lado da serra. Dali não avistaria o mar nem se ela tivesse dez vezes o tamanho que tinha. Com aquela idéia, desvaneceu-se também o meu namorado Leonardo, que morava naquela praia. Foi então que eu comecei a sonhar com o longe. Queria ir pra longe. Lá é que era bom. E vim. Hoje eu moro longe, perto do mar. De outro, que não o de Ilhéus. Mas mar é sinónimo de saudade. E de vez em quando, me pego desejando ir pra perto. Cruzar a Serra do Periperi pelo lado inverso. Ver os cactos cabeça-de-frade, o mandacaru, o bosque de eucaliptos que um tio do meu pai mandou plantar e que até hoje abriga todos os meus contos de fadas. As trilhas marcadas pelo Lobo-Mau. A cabana em que a Gata-Borralheira morava. A casa dos sete Anões era mesmo aqui, mas tiveram que derrubar pra abrir essa rua.

- Ah… era bom se não tivesse essa rua.

- Era…

O tio do meu pai eu não cheguei a conhecer, ia gostar de tirar umas satisfações. Entretanto tenho um outro tio, e me deu uma saudade danada dele. Telefonei.

- Tá bom, tio?

- Tô não, fia, tô não! Se eu disser que tô, tô mentindo. Mas tô em paz, viu?

Me deu vontade de chorar. Aquele tom me caiu no peito que nem uma garganta inflamada. Que nem mãe quando está doente e finge que não está. O tom me doeu. Só que aquele “tô em paz, viu?” doeu mais. Rasgou minha carne sem ser capaz de sangrar. Esse meu tio tem dessas coisas. Rasga a gente que nem papel molhado. Mas só quando está molhado. Quando está seco, é uma pedra cinzenta. Dura. Fóssil ressequido. Mas naquela hora ele estava derretido, era lava pura. Brilhava e foi me queimando. Queimou minha orelha, meu ouvido, meus dedos. Derreteu o telefone. E eu senti um amor tão grande por ele, ficamos tão próximos, tão longe de qualquer distância. Ele me tocou como nunca tinha tocado, um abraço apertado por dentro. E passei a amar os alambiques. Esqueci todas dores que já causaram. Só vinha à tona o encanto cortante daquele “mas tô em paz, viu?”. Esqueci a dor que todo fim-de-semana vem perturbar minha tia. Por transformar pedra cinzenta em lagrimosa poesia, os alambiques agora são para mim muito mais do que caprichos de deuses bêbados, são laboratórios de alquimia.

Um comentário:

Clotilde disse...

O alambique de meu avô lááááá no interior do Piauí sempre teve gosto de rapadura e alfinim, mas tbm tem lembrança de cachaça que desgraça, de alcool que não só entorpece, de droga que destroi e faz sofrer mais que morte.

Ainda longe do mar, sinto saudades dos cactus e dos bodes da minha terra.Eles estão entranhados em mim como a dor e as alegrias das lembranças da infância.

Como tu consegue me fazer lembrar tanto de mim hein Maria?

Ave Maria, nam!!!

Xerão. ;)