Perca um livro

Na semana passada perdi um livro.
Fosse no mês passado e eu ficava louca. Mas foi na última sexta e eu fiquei feliz da vida. Perdi-o no metrô de Lisboa, na Estação Marquês de Pombal, lá por volta das três da tarde, se bem me lembro.
E de propósito.
Não sei precisar se o propósito foi meu, ou dele. Mas o fato é que o deixei ali, sentado naquele banco subterrâneo e mal iluminado, como se estivesse à espera do próximo trem que o levasse a uma viagem rumo ao desconhecido, e também mal iluminado, coração humano. Um outro, que não mais o meu, claro. Com o perdão do trocadilho.
No exato momento em que terminei de o ler, ele me pareceu triste e deprimido. Notei umas rugas na capa e umas curvas nas folhas, das quais não me tinha apercebido antes. Achei que fosse por conta do manuseio, mas não foi. Com um olhar mais apurado e alguma sensibilidade era fácil perceber que se tratava de tristeza pura. Uma aversão assustadora a estantes e gavetas se podia sentir nas nervuras da capa, como um estremecimento, uma dor, um medo. Creio que todos os livros – salvo os mais tímidos ou preguiçosos – têm essa mesma neurose. Ou seria melhor descrição se falar em profundo desejo de liberdade? Não me posso furtar de fazer uma analogia ao homem. Quem de nós - homens e mulheres, salvo os mais tímidos ou preguiçosos – não deseja percorrer o assombroso, o aventureiro, o mítico caminho que se bifurca uma e outra e outra e outra vez, criando as artérias que oxigenam o mundo? Se também fosse um livro, também odiaria estantes. Preferiria bancos de praça, onde uma pessoa chega ali e o encontra, como a um velho amigo que se acaba de conhecer, se abrem um perante ao outro, se imprimem um no outro, cada um à sua maneira. Depois se despedem com um “até logo!” simples e sem dor, como se não se tratasse da despedida definitiva que de fato seria.
“O Capitão de longo curso”, de Jorge Amado, não foi muito exigente. Viajante experiente sabia que qualquer lugar onde passam duas ou mais pessoas é um potencial ponto de encontro entre amigos. Não pensem que é fácil, para uma mente como a minha, cada vez mais cética, atribuir características andróginas a uma resma de papel impresso. Mas há coisas inexplicavelmente claras. E é certo que O capitão de longo curso se despediu de mim com um jeito terno, embora não tentasse disfarçar a excitação de ter ficado ali enquanto eu entrava no vagão.
Também não posso negar a minha excitação. Era a primeira vez que o fazia deliberadamente. Para não criar confusões, e aproveitando para advertir o “encontrador” da personalidade desbravadora daquele que em breve teria em mãos, deixei uma carta, com a parte de cima à mostra dizendo assim: “Oi! Eu perdi esse livro de propósito para que você o encontrasse”, e também expliquei rapidamente a idéia do americano Ron Hornbaker, que criou o “Bookcrossing” no começo dos anos 2000, que visa transformar o mundo numa grande livraria aberta e gratuita, e tentei também explicar a idéia do livro, de querer viajar por aí. A isso se perfilou uma quantidade de linhas (Já agora, também eu queria seguir o exemplo e tentar estabelecer um certo contato com o potencial leitor, afinal, todo escritor tem um quê de livro). Enfim, lá me fui eu em direção à Avenida de Roma, tentando encontrar a Livraria Barata. E ali ficou ele, radiante, com sua capa azul com o retrato perfeito que Caribé – grande artista baiano – fez do Aragãozinho, ou melhor, do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de longo curso. Nos despedimos com aquele “Até logo!” dos velhos amigos, simples e sem dor, cada um buscando novas aventuras e mandando um abraço apertado ao próximo companheiro um do outro, e carregando a infinita esperança de manter contato.


*

Tente você também aderir à idéia fantástica de Ron Hornbaker, e perder seus livros, liberta-los das estantes, oferecer-lhes a eles e a si novos mundos. Vá ao site http://www.bookcrossing.com/ (em inglês) ou, para os brasileiros http://www.livr.us/ e ajudem a transformar o mundo numa grande livraria, por pura intensidade de viver e sincero amor literário.


Publicado na Revista Cotoxó

Um comentário:

Rosinha disse...

Lembro exatamente do dia que falamos sobre isso, bem como do dia de deixei de chorar e passei a sorrir quando perdia um livro.

Grandiosa és tu mulher das letras que fascinam!!!