Metamorfose

Lembro da gente no chão da praça, sentadas, como se daquele ângulo fosse-nos possível vislumbrar toda a verdade do mundo; e fumando, como se aquele cigarro, comprado a retalho, que lutava com nossas gargantas conferisse alguma sabedoria à nossa voz. O meu cabelo temperamental, ao melhor estilo Maria Bethania, lia-me artista aos olhos dos outros. Mas o dela, lia-lhe livre. No copo, a cerveja misturada com o céu azul ia enrosescendo aos poucos, enquanto a esparsa espuma fazia as vezes de nuvens. Bebíamos o céu como se fosse um hábito, como se não fosse único, como se fosse nosso. Naquela época o mundo era tão pequeno que se quiséssemos, tocá-lo-íamos todo numa única carícia de mãos. Nas nossas mãos também vinham escritas nossas vidas. Era tudo tão certo, tão destinado, tão às claras, que o mistério só se abrigava no rosto, no dia da semana e na textura da voz. A eternidade era outra certeza, as dúvidas recaíam tão-somente sobre o sistema. “Imagine all the people living for today…” já não era do nosso tempo, mas permanecia atual. Coisa de gênio, acreditávamos. E pensávamos a genialidade como algo atemporal. Era algo como o guarda-chuva de Rubem Braga: pertinente em todas as épocas, quase imutável, quase que para ser perfeito bastava não ser chinês. Mas a China era corajosa aos nossos olhos. Era nobre, enfrentava o mundo, vencia monstros. Mao parecia encaixar perfeitamente na nossa utopia. Na utopia que ela me ensinou. Eu que era tão crua quando a encontrei. Tão crua, quase nua, meio ridícula… Ela me mostrando como enrijecer os braços, como fortalecer o espírito, “pero sin perder la ternura jamás”, íamos com a cara pintada, com as costas radiantes de luas e estrelas. Da lua também se diz que era nosso brinquedo. Rolávamos por suas crateras e de tanto riso, tanto riso, foram-nos tatuadas gargalhadas na alma. Ah, a alma, essa senhora controversa que tanto nos acalma, quanto nos inquieta. Da alma, talvez, também brotasse essa sede de encantamento, de deslumbre, que Gaarder dizia ser imprescindível a qualquer filosofia. E quanta filosofia parimos no chão daquela praça. De parto em parto fomo-nos tornando deusas. Aquelas todas que (re)encarnávamos sob vestes pagãs. E de deusas, fomo-nos evoluindo mulheres. Sempre intensas. Sempre vivas. Cheias de sangue vermelho entre as pernas. Capazes de seduzir o mundo com o perfume que nos evolava da pele. Permanecendo, porém, sempre meninas, guardando segredos e transbordando essência. Trocamos personalidades. Fui sua Madre Teresa e ela, minha Frida Kahlo. Tijolos uma da outra, posso dizer que fomos nos construindo. E de uma personalidade simples, ou quase simples, talvez Bi, ela foi me proliferando por dentro, me multiplicando em várias, e como ela, fui me tornando muitas, fui me tornando Poli.

Um comentário:

poli.trindade disse...

JÁ ESCREVI, JÁ CHOREI, JÁ APAGUEI, NÃO SEI MESMO O QUE DIZER, SÓ QUE TE ADMIRO TANTO, TANTO, TANTO, VOCÊ É MUITO!!!!!!!! EU TE AMO MINHA IRMÃ, NOSSAS ALMAS ESTÃO DE MÃOS DADAS SEMPRE, NÃO IMPORTA A DISTÂNCIA, CHUIF, CHUIF...... TÔ SEMPRE POR AQUI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!