Deus, cola nosso presépio?





Já faz muitos anos, mas até hoje quando me lembro de Natal uma das primeiras imagens que me surge é eu chegando em casa da minha avó, abrindo o portão de ferro pintado de ferrugem, e atravessando o corredor de entrada, ao tempo que ignorava o pé de figo, a árvore da felicidade, o pé de cacau e as outras plantinhas anônimas que o ladeavam. Naquela tarde, véspera de Natal, como em tantas outras tardes que a gente nem liga, o sol esticou os braços, empurrou a porta que estava sempre só encostada e entrou na sala deixando pegadas de luz na cerâmica do chão. Entrei logo a seguir a ele, e olhei pra trás na esperança de também eu estar deixando pegadas de luz. Mas só vi uns ciscos se sacudindo no ar e indo pousar no degrau da escada, lá fora.
Lá de dentro vinha um cheiro de festa, me lembro de tia Lica às voltas na cozinha, rodeada de perus, cebolas, bolacha cream cracker, azeitonas, e frutas chiquérrimas que a gente só via na última semana do ano e que meu pai montava em forma de árvore de Natal no centro da mesa, contrastando com aquela arvorezinha velhinha e brilhante, enfeitada com papais-noeis de chocolate e bolas de vidro que, ambos, desapareciam em nossas mãos com a maior facilidade do mundo.
Enquanto Côco limpava a casa, minha mãe, a matriarca, preparava os rituais. A meditação diante do presépio - já meio quebradinho e com algumas peças trocadas, com o lago de espelho refletindo a delícia de se nascer numa família também quebradinha e com peças trocadas como a minha - o Pai-Nosso de mãos dadas à meia-noite antes da ceia. Depois, o amigo secreto, o amigo sacana, e a presença invisível do 'papai noel' que encantava a infância e a adultância daquele povo todo. De dentro de mim brotava aquela sensação tão bem definida por minha mãe como “trem bom!”.
Eu estava com “trem bom!”, tinha acordado cedo, com todo amor do mundo pulsando na alma, o coração enorme, dilatado, grávido de tanta humanidade, uma idéia de flocos de neve quentinhos decorando o dia inteiro (contra-senso permitido apenas às crianças dos trópicos). Saí cedo para comprar as lembranças que faltavam: um carrinho pra Emerson, um sabonete pra minha avó e pra tia Lica, uma carteira de Hollywood pra meu pai, batom ou presilhas pra Vera e Lili, uma bola pra Teteu (que logo seria escondida sabe-se lá por quem no vão que ficava no teto da cozinha, onde tinha um tanque), uma revistinha pra Duda, já não me lembro o que pra Kau - um chaveiro talvez - pra minha mãe não podia ser nada de casa, então seria um sabonete também, Alma de Flores ou Vera.

Lá fora, na cidade, um cristianismo lancinante cortava a gente aos bocados. Na Praça 9 de Novembro, me lembro de encontrar uma mulher vendendo qualquer coisa em nome de alguma instituição. Eu perguntei quanto custava, ao que ela respondeu: qualquer coisa. Qualquer coisa por qualquer coisa é um preço justo. Então vazei minha compaixão tirando Hum Cruzeiro Real da bolsa, enquanto pensava que teria que economizar nos presentes, e quando esperava um sorriso agradecido da mulher, ouvi um balbuciar ranzinza dizendo mais ou menos que “ um cruzeiro não serve pra nada…”, fingi que tinha ouvido um “Feliz Natal!” e fui à minha vida. No caminho, outras tantas mulheres vendendo outras tantas coisas por preços justos – ou não – e eu só fazendo contas de economizar mais e mais nos presentes. Quem sabe minha mãe não se contentaria com um sabonete Lux Luxo ou Gessy, não é?

É então que vou entrando pela casa da minha avó, e antes de ir ver o rebuliço lá pra dentro, dou-lhe um beijo na testa, e ela que escrevia sem parar os seus rendilhados livros, indiferente àquilo tudo que se passava nas traseiras da casa sequer deu pela minha presença. Mas à meia-noite, também ela juntava-se conosco para rezar um Pai-Nosso que transcendia, e que para além do pão-nosso de cada dia, também pedia a Deus que fosse colando o nosso presépio, que é para que todas as peças pudessem se reunir em volta do lago de espelho outra vez.

Desenho de Mariana, retirado da internet.

2 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

lindo texto! conheci seu blog porque vi que acompanha as !noticias do interior". fiquei feliz. seja benvinda e aqui tb voltarei sempre.
abraço

Rosinha disse...

Me fez lembrar do "Alma de Flores" que a muito tinha se perdido em minhas poucas lembranças da infância.
Cheiro de vó Aurea e de bolinho frito no azeite de coco.
Humm...bom!!!

Adoraria um presépio de verdade e que as lembranças pudessem ir além do mix de realidade e imaginação.

Espetacular novamente Maria.