A Caixa-de-Pó





A tampa mais parece uma bolacha onde dei uma mordida, ou quebrei um pedacinho quando tentava tirar o recheio do meio, raspando os dentes.

Mas o recheio da caixa-de-pó de tia Lica era algo mais que creme e muito mais que doce. Eu beliscava a tampa pela bolinha do alto, e o cheiro que se lhe desprendia marcou-me de tal maneira que hoje proporciona-me uma viagem no tempo capaz de confirmar toda uma data de axiomas quânticos. E agora eu tinha três anos, tinha cinco, tinha seis, conheci Leonardo na praia que havia, de certeza, atrás da Serra do Peri-peri, aonde nunca ia porque o sol do Planalto da Conquista tendia a castigar.

Quando alcançarmos uma manhã dos meus doze anos, eu estarei acabada de menstruar e aquele pó levemente acastanhado, fabricado muito provavelmente na época áurea do cacau — dado que quando a minha avó nasceu — me fará mais mulher que o sangue que escorrerá pingado entre minhas pernas, e me conferirá mais sabor que o mel dos Ilhéus.

Aos vinte, a caixa-de-pó de tia Lica adornará mais o topo do guarda-roupa da minha avó do que meu rosto, estará ela coberta de pó. Aos trinta guardará brincos sem par, uma lâmina da gillette, grampos de cabelo e umas moedas esquecidas.

Mas sempre que eu lhe beliscar a bolinha do alto, como se separasse as duas bolachas para roer o recheio, será aquele cheiro de sensualidade antiga que eu roerei com os dedos. Cheiro que tão bem conheciam os meus namorados secretos, imaginários, para quem eu me enfeitava todos os dias. (Enfeitiçava todos os dias). Para quem eu me hei de enfeitar todos os dias. (Enfeitiçar-me, digo!):

Esponja de veludo fazendo vezes de varinha-de-condão.

2 comentários:

Capa Rota disse...

A-do-rei! Fez lembrar-me, vá se lá saber porquê, Persepolis e o crecimento de Marjane: http://www.youtube.com/watch?v=YMmN_i41Gfs&feature=related

Mais, mais, mais!

marizete disse...

Ain...que coisa mais doce, viajei com vc na caixa de pó.
Lindooooo demais.